Mamães e seus grupos de whatsapp: efeitos colaterais

entre muitas coisas boas que o grupo de mães no whatsapp nos traz, tem algo que me deixa agoniada.

Participar de um grupo de mães no whatsapp tem muita coisa boa: A troca de experiências é valiosa, as dicas muitas vezes servem pra você e sua prole, sempre tem alguém que acha promoção de fralda e, quando você tá exausta, estropiada e acabada, tem muito colinho. É só dar uma reclamada da vida que vem carinho, muito “óoo, tadinha! Te entendo.”. Esse consolo é apoio sem querer ficar dando “solução” ou olhando com cara de mosca morta na linha “do quê que você tá falando”, que é em geral como os louváveis maridos/ pai da criança recebem nossos desabafos.

marido sem noção
quando esse nenê nascer, ele vai vir com um manual junto. É só ler, vai ser super tranquilo!

Mas, como tudo nessa vida, o grupo de whatsapp tem o seu lado sombrio.

Já rolou um texto pela essa internet de meu Deus falando sobre as mães perfeitas dos grupos de Facebook e de whatsapp. Essas não me afetam tanto, já estou em paz com o meu lado desapegada dos frufrus, que de Chá de Bebê fez uma feijoada pra galera, que levou 9 meses pra batizar o filho e que não considera a possibilidade de encomendar cupcakes decorados pra festinha de 1 ano (fiquem tranquilas, ele tem avós).

Filho esse que também já deve estar ciente da mãe que tem. Eu acredito que eles escolhem a mãe que vão querer lá no Céu, e quando o Enrico apontou pra minha foto dizendo “quero essa aqui”, avisaram ele de todas as minhas peculiaridades, dentre elas o fato de que eu não sou da turma do “quanto mais detalhes e babados melhor” e o Enrico disse “tá, ainda aceito, pode me enviar”. Se eu estou errada e ele não sabia disso, vai ficar sabendo. Não se preocupem, logo vou começar a poupança-psicoterapia pra ele, dentro do programa “Minha mãe, meu trauma”.

A 17-year-old discusses his plans for the future with a female psychotherapist.. Image shot 09/2008. Exact date unknown.
pensei que o dinheiro guardado era pra me dar um carro, mas ela me fez descer aqui na frente, disse que ia pro shopping e volta daqui uma hora.

Enfim, voltando ao whatsapp e o seu lado sombrio.

Já te aconteceu de cometer o ERRO de ler sobre os efeitos colaterais de um remédio que você sempre tomou e nunca teve problemas? “Dor de cabeça” – começa a sentir uma pontada na têmpora, “espasmos musculares” – coloca a mão no pescoço, “fome aumentada” – já pega o chocolate. É o poder de sugestão da bula. Você não estava sentindo nada daquilo, mas chegou a bula e te alertou pra tudo que pode acontecer e logo você começa a pensar se não estava mesmo sentindo tudo aquilo, só foi muito cega e desligada pra perceber.

Isso acontece comigo, meu filho e grupo de mães no zapzap.

Alguém manda uma foto de uma criança com pintinhas e a pergunta “Meninas, alguém já viu esse tipo de pintinha no pescoço do nenê? Estou preocupada porque ele está chatinho e agora apareceram essas pintinhas…”. Lá vou eu dar uma revistada no corpo do meu nenê. Será que deixei passar umas pintinhas? Sou uma tansa mesmo, SERÁ que deixei?!

“Oi amigas, passei a noite inteira acordada, o Fulaninho não dormiu a noite toda porque os dentes tão nascendo. Tô morta!”. Já começo a me preparar pra noites insones, 20 pra ser mais exata, que é o número de dentes de leite na boca da criança.

“Meninas, acabo de dar abacaxi pro Beltaninho e ele agora está com a boca coberta de aftas!!!”. O abacaxi passa a receber olhares de desconfiança e desprezo.

“Passei duas horas consolando a Ciclaninha, ela estava indo super bem na escolinha, mas agora diz que não vai mais de jeito nenhum”. Vou ensaiando na minha cabeça os argumentos que vou apresentar ao infante quando ele chegar na época de se recusar a ir pra escolinha.

criança protegida
fora o estoque de plástico bolha que eu já adquiri

Resumindo, o grupo de mães do whatsapp tem muita coisa boa e muitas mães lindas e solidárias, mas mesmo assim eu não consigo, não sou forte o suficiente, não dou conta de ficar sabendo de tudo o que eu não sei, de tudo que pode acontecer. Me dá ruim, me dá agonia, eu fico coisada!

E mais: eu fico pensando nas coisas que já mandei nos grupos, se já deixei alguém ansiosa com alguma pergunta minha. Pensando bem, posso estar deixando uma mãe ansiosa AGORA mesmo lendo esse texto. Vai ver esse texto era a bula de remédio, ela nunca tinha lido, mas agora percebeu, já está sentindo a neura crescer. Desculpa!

Vamos encerrar esse texto por aqui antes que eu faça mais vítimas!

Estamos em obras, contamos com as sua compreensão

Quando a gente vira mãe, um novo mundo se abre diante dos nossos olhos.

Essa frase é básica, é clichê e é muito verdadeira – como a maioria dos clichês.

São montes de informações, sentimentos, necessidades, tarefas e responsabilidades que se antes eram inexistentes, agora meio que dominam a sua vida e o tempo que antes era vago.

Isso por mim, que refleti muito antes de decidir me tornar mãe, era esperado. O que não era esperado era a dificuldade que o meu cérebro ia ter de absorver esse novo mundo.

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Não dá, não consigo lembrar das coisas! As coisas do nenê, não esqueço nada…tá, ou quase nada. Mas o resto, gente! Meu marido já nem tem mais raiva de repetir a mesma coisa pra mim, se conformou. No trabalho tenho que anotar as coisas em mil lugares diferentes, esqueço do que me foi dito semana passada. A coisa simplesmente não anda do jeito que andava antes. Quando menos espero, percebo que parei de prestar atenção na conversa, no trânsito, no filme. Tô lá com cara de peixe, pensando em sei lá…papinha, protetores de tomada ou que não paguei uma conta.

Tarefas simples ficam semanas sem ser executadas, mensagens ficam sem resposta, assuntos ficam esperando uma definição minha. É um nó, um nozão cego.

Como, gente? Como as pessoas fazem com mais do que um filho? Como a minha mãe, que teve quatro, fez? Onde vai essa montanha de preocupações e deveres?

É como se meu cérebro estivesse em obras desde que o Enrico nasceu. Empenhado na construção uma sala (enorme) pra armazenar e gerenciar todas as coisas relativas ao nenê, mas essas obras estão muito atrasadas.

Aliás, acho que essas obras são do governo federal. Não, acho que são do governo estadual que não é do mesmo partido do governo federal, então pararam de enviar verba. Acho que tem um processo de impeachment no meu cérebro.

O resultado disso tudo é que está tudo misturado, tem caixas sobre maternidade no lugar que ficam as coisas de trabalho, na sala de informações cotidianas, de relacionamentos sociais. Imaginem como está a sala que guarda as coisas relativas à matemática – ela já era minúscula, agora então…impossível.

Eu estou aguardando pacientemente, acho que uma hora as coisas vão se organizar e cada coisa vai ser colocada em seu lugar. Além disso, estou confiante de que no momento que isso acontecer, eu vou decidir engravidar de novo. É claro.

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Também pode acontecer de que estou esperando à toa, e a vida agora é o caos. Não tem sala, não tem organização, tem só bagunça e coisas por fazer – e vai piorar. You know nothing, Jon Snow.

Nos resta orar e confiar que o pessoal das muralhas vai conseguir manter o reino a salvo dos Outros e a organização vai ser restaurada.

Viram como eu misturei maternidade com Game of Thrones? Nada a ver? Normal. Eu faço isso agora.

Se segurem.

texto por Ana Victória Foganholi

página no Facebook: Não gostou? Faz o seu.

<3 Placenta <3

placenta

Essa é uma foto do Enrico olhando (com a mão) a Árvore da Vida que foi feita com placenta dele. A placenta dele e minha. Nossa.

A placenta é um órgão especial e temporário que o corpo mamífero e feminino (ah vá!) desenvolve para nutrir a sua cria. A placenta serve de pulmão, estômago, filtro, barreira para toxinas, produtora de hormônios, sistema de controle de temperatura pros nossos nenês. Para os mamíferos humanos, durante a gravidez ela é medida, controlada, observada, valiosa, abençoada e depois…normalmente…jogada fora, junto com todo o lixo hospitalar do lugar.

Isso, não vou mentir, me deixa um pouco triste.

Me deixa triste porque eu sinto no meu coração que a placenta deve ter um destino mais honroso, e seja pra onde for que ela vá ser encaminhada, que seja acompanhada de muita gratidão.

Ela representa a ligação entre dois mundos, viabiliza a formação de uma vida, é um órgão que a mãe e o bebê dividem, ela tem uma vida curta, valiosa, indispensável e poderosa.

Seja da maneira que for, eu acho que ela merece nosso amor não só enquanto foi útil, mas depois também.

Existe até um processo que transforma a placenta em pó, que por sua vez é colocado em cápsulas e a mãe ingere durante o puerpério. Eu até considerei fazer isso com a minha, mesmo não encontrando muitos dados científicos comprovando a eficácia da prática, mas não tem ninguém em Curitiba que faça e pra mandar pra cidade mais próxima ia ficar muito caro e arriscado.

Meu irmão engraçadão sugeriu fazer um smoothie com a placenta e tomar. Também não foi o caso.

Então o jeito que eu encontrei de honrar essa placenta que esteve dentro de mim, foi fazer uma impressão dela como Árvore da Vida, e depois enterrá-la na floresta, com uma pequena oração.

Muito grata, placenta minha! Você arrasou do começo até o fim!

Se o quebrante é seu problema, seus problemas acabaram.

marque seu amigo

Indo fazer a unha na semana passada, cheguei no salão e sentei do lado de uma senhora bem arrumada assim, cabelo com laquê, maquiada, jóias, capinha de celular com glitter da Barbie E da Hello Kitty. Não era apenas a clássica perua sênior de shopping, era uma perua hablante e com um sotaque diferente, que não foi difícil descobrir, porque ela mesma contou sem ser perguntada, era de Manaus.

Falo de início com certa antipatia pela perua, porque ela fez um comentário péssimo sobre o corpo da ex-grávida (tipo eu) que um dia eu conto, porque tem material suficiente pra outro texto. Mas ela estava tão do meu lado, falando tanto comigo e falando algumas coisas tão engraçadas, que eu acabei cedendo e comecei a conversar com ela.  A verdade é que eu não resisto a uma pessoa extravagante, um pouco cômica e que fala sem pensar. Eu amo ficar quieta e ver o que essas pessoas dizem sem incentivo ou estímulo. Se tiver sotaque diferente então, quase impossível eu me aguentar. Dou trela mesmo, me julguem.

Eis que a conversa sobre nenês corria solta, porque quis o destino que a minha manicure também esteja amplamente grávida, e lá pelas tantas a perua manauara começou a falar sobre o quebrante. De novo esse tal de quebrante.

Veja: quando se tem um nenê recém-nascido, um novo mundo surge diante dos seus olhos. E apesar desse mundo ser um lugar de muita alegria, fofura e descobertas, também tem sua boa dose de coisas sem razão de ser, de mistérios e de fatos que parece que todo mundo já sabia, menos você. Isso quer dizer que a gente entra nesse mundo já se sentindo meio atrasado e meio marido traído, que é sempre o último a saber. Pra mim, o que mais tem encucado até agora, é esse tal do “quebrante” ou “quebranto”, como queiram.

Mal sabia eu que ia a tal madame do meu lado no salão tinha a cura para esse problema!

*

O quebranto me parece que é uma espécie de efeito que o mau-olhado causa. Não é algo novo, muito pelo contrário, é o tipo da coisa desacreditada pelas novas gerações, mas que os mais velhos juram de pé junto que existe.  É assim: a pessoa vai lá, vê o lindo e redondo nenê, lasca mau-olhado nele e ZÁZ, o nenê sofrerá dali em diante efeitos desse mau-olhado, pois está com quebrante. Ele não vai dormir direito, vai chorar demais da conta, vai ter cólica, febre, malemolência.

Uma amiga minha, vendo o nenê dormindo no meu colo e dando aqueles sorrisinhos que eles dão quando estão caindo no sono, foi taxativa “Ih, olha aí, tá com quebrante”. Então, se o seu nenê está dando esses sorrisinhos de mentira enquanto cai no sono, escreva: é quebrante. Encerrado o assunto? Não. Se vamos nos informar com pessoas de linhas mais céticas, sabemos que esses sorrisinhos são um reflexo causado pelo movimento dos gases no trato digestivo do pequeninho. Mas e se for quebrante? Como diferenciar o sorrisinho reflexo do sorrisinho que está denunciando o mau-olhado instalado?

Pois aqui vale mencionar uma das profissões que está desaparecendo por falta de demanda, a da benzedeira. Sim, benzedeira. Essa é uma mulher, tipo uma feiticeira sem aquela aura pagã que ronda as feiticeiras e bruxas em geral, que tem conhecimento de ervas, orações, rezas e tudo mais que envolve mandingas bem brasileiras. E o que ela faz com tudo isso? Sim, ela benze o povo em geral, incluindo bebês indefesos que foram pegos, contaminados, impregnados com esse tal quebrante.

Se você não conhece uma benzedeira, pergunte pra algum conhecido, ele conhece uma. E se ele não conhece, conhece alguém que conhece.

Enfim, eu penso muito nessa pessoa que tem a coragem de colocar mau-olhado em nenê, sabe?  Mas depois de refletir e me indignar, cheguei à conclusão que é isso mesmo, tem gente ruim no mundo, e que faz coisa pior, mas muito pior, do que colocar mau-olhado em nenê.

Mas acabou que um novo aspecto do quebrante também chegou ao meu conhecimento: gente que gosta, que quer o bem do nenê também pode colocar quebrante na criatura!

É assim: a pessoa ama tanto, acha tão fofo, tão lindo, tão tão tão me-dá-vontade-de-esmagar-essa-coisa-gostosa-cuti-cuti, que inadvertidamente vai lá e bota uma ziquizira no nenê, uma ziquizira de amor, mas ainda assim uma ziquizira.

Acho que deve ser parecido como quando você vê alguém comendo algo gostoso, e fica olhando aquele algo que a pessoa está comendo, mas olha tanto que o pedaço de comida cai no chão. É tipo isso o quebrante colocado em nenê por gente insuspeita: ela não queria, foi mais forte do que ela.

E tudo isso me leva a duas questões: como identificar o quebrante e como impedir que o quebrante se instale no nenê?

Como identificar o quebrante, como tudo que é crendice, é uma ciência inexata. Já mencionei os sintomas do nenê quebrantado: dorme mal ou não dorme, chora muito, tem cólica. Não quero aqui soar um São Tomé, mas não são exatamente estes os sintomas de todos os nenês em geral, especialmente os bem novinhos, têm? E que deixam as mães zonzas, sem saber se pega ou deixa no berço? Pois então, não tenho conclusão certeira que ajude muito no desespero da madrugada insone. Então, desculpa te decepcionar.

Agora, como podemos impedir que o quebrante se instale no bebê? Sim, porque se existe quebrante desde que bebês gordinhos e delícia existem no mundo, deve ter um jeito criar uma casca protetora anti-quebrante em volta dele.

Eu também não tenho muita certeza de como fazer isso (sim, aí está você se decepcionando novamente). Não acho que nunca sair de casa com o nenê, pra impedir desconhecidos cruéis de jogarem olho gordo no pequeno resolva, já que já aprendemos que avós, tias e conhecidos em geral podem também quebrantar, mesmo sem querer, o rebento. E se você vai querer tentar impedir avós e tias de ver o neto/sobrinho, o quebrante vai ser o menor dos seus problemas.

Já estava meio conformada de que o quebrante é um fato inevitável da vida, e que o melhor mesmo é ter ao alcance da mão, ou do whatsapp, uma boa benzedeira (que eu inclusive tenho pra indicar) que extermine o quebrante instalado e seguir vivendo.

Mas a vida, essa bandida, sempre guarda suas surpresas, e a solução do quebrante foi dada pela perua barbie sênior do salão.

*

Conta a distinta senhora, que em Manaus, quando alguém elogia os encantos do nenê, a resposta certa e natural não é um “obrigada”, ou um “ai, também acho”. Não não, nada disso. Mães prevenidas e conscientes, que sabem que por trás de cada elogio e olhar amoroso pode morar um intencional ou acidental mau-olhado, não hesitam e se alguém comenta sobre a fofice e boniteza do nenê, respondem automaticamente: “Achou bonito? Então beija o cu dele”.

“Beija o cu dele”!

Simples assim!

Essa rasteira resposta que, de acordo com ela, em Manaus não gera sequer um piscar de olhos, pois é tradicional, impede todo e qualquer tipo de quebrante de se instalar, seja proveniente de pessoa desconhecida ou conhecida, seja do tipo forte ou fraco.

Eu que já estava absolutamente maravilhada com a facilidade da solução, fiquei ainda mais impressionada quando a minha manicure, que é de Fortaleza, rapidamente declara: “Claro que não! Não é ‘beija o cu dele’, é ‘cheira o cu dele’”. Temos variações! Todas igualmente eficientes, tenho certeza.

Beije-se ou cheire-se, a solução é tão simples quanto perigosa, já que em terras curitibanas acredito que vai gerar no mínimo um arregalar de olhos e depois não vai ter explicação que chegue. Mas se você, em prol do bem do seu bebê e para eliminar o quebranto antes de ele se instalar, for começar a dar a resposta-padrão, me chame, porque eu quero estar do lado pra ver o que acontece.

– texto por Ana Victória

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