Dificuldade pra amamentar? Você não está sozinha.

Vou começar abrindo o coração:

Eu, Ana Victória, não consegui amamentar.

E com toda essa imposição, essas frases que delicadamente sugerem que as mães que não amamentam amam menos os seus filhos, parece que as que não amamentam são preguiçosas, indolentes. Os avisos apocalípticos sobre os horrores que aguardam as crianças não amamentadas pegam mais fundo ainda e eu me sentia uma verdadeira incompetente, uma fracassada por não conseguir dar pro meu filho uma das únicas coisas que ele precisava para sobreviver.

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***

Não sei como foi para vocês, mas para mim, quando eu descobri o quanto é complexo e dolorido começar a amamentar, eu me assustei.

Vale dizer que eu acho que não se fala tão abertamente sobre a pauleira que é DE FATO começar a amamentar porque existe um medo de desestimular as futuras mamães a lutarem para conseguirem dar leite do peito. E é um medo justificado, porque tem toda uma indústria, um sistema, uma estrutura que quer levar a mãe a desistir de amamentar e gastar dinheiro comprando leite em pó. Não se iluda, existe sim.

Seja como for, eu fui livre, leve e solta pra esse mundo da amamentação, tipo a mocinha da propaganda de absorvente.

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oh the joy!
Foi por que não me aprofundei no assunto com amigas que já eram mães? Sim.

Foi por que entendo a amamentação como algo natural (e é mesmo) e por isso aconteceria “naturalmente”? Sim.

Foi por que dizem em tantos lugares coisas como “amamentar é lindo”, “amamentar é tudo que seu filho precisa”, que eu acabei achando que amamentar é igual a deitar numa nuvem cor de pêssego com anjinhos cantando enquanto seu filho delicadamente suga o amor líquido que jorra com facilidade de seus úberes? Ôu iés.

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tipo assim: deusa poderosa, coroa de flores, bocão, com leite até a canela.  *foto por Ivette Vens

Corta o filme para a seguinte cena:  eu saindo da maternidade com os dois bicos do seio em carne viva. Um tinha rachado e sangrado um bom tanto – e deixa eu falar que quando falamos de mamilo, até um pontinho de sangue já um “tanto” suficiente pra te deixar coisada, e foi muito mais do que um pontinho que eu encontrei coagulado, colando meu mamilo no sutiã – já o outro mamilo estava com hematomas, o pouquinho de leite que eu tinha já tinha secado e eu tava um caco, me sentindo uma incompetente insone e chorosa. Que barra.

Não tinha nuvem cor de pêssego, não tinha anjinho cantando (bom, tinha um chorando) e definitivamente não tinha peito jorrando leite. Ligar para o PROCON não era uma opção, já que quando era mais nova, eu alterei as características originais de fábrica do “produto”

Eu tenho cirurgia de redução de seio, sabe? E o que eu lia muito, meus olhos esperançosos queriam ver era apenas “Mulheres que reduziram os seios conseguem amamentar sim! Os médicos disseram ‘provavelmente não’, mas o corpo disse SIM”. E eu tava crente, tava comprometida, engajada nessa causa. Acreditava que eu também ia escrever um texto “Disseram que não ia dar, mas eu consegui!”

Eu não consegui.

Não teve massagem, chá, meditação, Equilid, spray de ocitocina, ordenha manual, eletrônica, supersônica, choro, reza, promessa que mudasse a realidade dos fatos: eu simplesmente não tinha glândula mamária regenerada o suficiente pra produzir mais do que 30ml de leite por dia.  Abracei esse “eu consigo amamentar mesmo com redução, não importa o quê” e demorei pra me conformar.

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eu ia pagar direitinho, juro!
Hoje, meu ponto de vista é que a nova mãe acaba presa no meio dessa guerra do “natural vs. indústria” na amamentação, guerra que nem é dela, da qual ela nem sabia. Fica isolada, infantilizada e desinformada. Novidade né?

Lembro até hoje do que passava pela minha cabeça quando saímos da maternidade e paramos na farmácia pra comprar o tal leite em pó: eu vi meu marido saindo com a lata na sacolinha e, enquanto ele caminhava em direção ao carro, eu pensava “essa lata infeliz é a ÚNICA que nós vamos usar, isso se usarmos inteira, logo eu vou estar amamentando.” Ha Ha Ha. A lata riu por último. Foi só muito depois que eu ri junto, abraçada na lata, pois hoje eu sou grata a ela.

Naqueles dias de 2015, quanto mais tempo passava, mais angústia e sensação de fracasso ia me dando, pois o leite não brotava, não vinha, não jorrava. Eu ficava pensando que se a gente estivesse na pré-história meu nenê ia morrer, porque eu era incapaz. (Eu sei, eu sei…mas é que eu tava no puerpério.).

Essa história termina bonita (só depois que eu me dei conta dessa beleza) – comigo chamando uma enfermeira de amamentação, um anjo chamado Grasiela Taborda Kemczenski do deleitedopeito.com que me ensinou um jeito de dar o leite em pó, mas com o precioso contato pele a pele mãe-bebê, a relactação. (se te interessou, procure uma profissional na sua cidade!)

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relactação! uma sondinha que leva o leite da mamadeira à boca do bebê, que está sugando a mama da mãe normalmente! *foto retirada do site babycenter.com
Mas quantas ainda carregam, quantas vão carregar, um sentimento de frustração e culpa injusto? Acho que muitas.

Então eu vou escrever aqui o que eu queria que alguém tivesse me dito olhando nos meus olhos, e espero que chegue em alguém que esteja precisando ler isso: no começo, pra algumas poucas mães é fácil e tranquilo. Mas no começo, pra maioria das mulheres, amamentar é difícil, dói muito, é difícil pegar o jeito, mil pessoas dizem mil coisas e poucas delas vão ajudar em alguma coisa e você pode se afundar em dúvidas. Depois fica fácil, vai ser delicioso, um momento valioso, vai ser naturalíssimo, prático e só amor. Mas até chegar lá precisa de determinação e coragem. E se depois de tentar sinceramente e de todo coração, você não conseguir:  você não é uma inútil, você não é menos mãe e você não ama menos o seu filho e seu filho não está condenado a ter doenças pelo resto da vida por causa disso.

Vão lutar a guerra de vocês pra lá e deixem a nova mamãe em paz, informada e segura, fazendo o que der, do jeito que der.

Amamentar não é um ato de amor, amar é que é um ato de amor.

texto por Ana Victória Garofani Foganholi

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O que falta num pai para conseguir cuidar de um filho?

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parece que não falta nada

No fim de semana passado eu viajei. Fiquei fora de 6ª feira bem cedinho até domingo no meio da tarde. E quem eu deixei em casa? Meu filho de 1 ano e 2 meses e o meu marido. E esse marido (não) por acaso é o pai desse filho.

E no processo de organizar a viagem, preparativos para mim mesma e para quem iria ficar, comecei a notar uma tendência que para mim foi inesperada: mais do que querer saber onde eu ia, o que eu ia fazer, as pessoas queriam saber quem ia ficar com o meu filho.

Me entristece um pouco dizer que 90% das pessoas, homens e mulheres, de todas as idades, ficaram impressionadas e/ou confusas ao saber que quem ia cuidar do nenê era o próprio pai.

“Mas ele consegue?!” ,”Como? ninguém vai ajudar ele?!”, “você tem coragem?!”.

As respostas para as perguntas são: com certeza absoluta, a princípio não, com certeza absoluta.

Não preciso nem entrar na questão de que se fosse o meu marido viajando, o contrário não ia acontecer. O filho é responsabilidade exclusiva da mãe, correto? Aham, vai nessa.

Pra mim a mensagem que fica, depois de concluir pela centésima vez que eu fiz uma boa escolha em questão de pai de filho, é que não só as mulheres precisam parar de pensar em homens como “fadados ao sucesso” no campo profissional, mas também precisam parar de pensar neles como “incompetentes ou coitadinhos” no campo doméstico/familiar.

O que falta num pai para conseguir cuidar do filho? Gente, não deveria faltar nada. Não falta NADA. Homens são tão capazes de afeto, amor, cuidado, dedicação quanto são as mulheres. São sim. Basta eles quererem e basta as mulheres darem espaço.

Não dá pra negar que muitos homens escapam dessa e se recusam, muitos se fazem de galinha morta pra andar de Kombi – sobre esses, tenho a dizer apenas: sinto muito, você está cometendo um grande vacilo. Adeus para esses homens, não quero falar deles.

Mas se formos falar do papel que a mãe tem nisso, acho que às vezes pode faltar confiança no pai, ou ter excesso de peninha.

Então, o que eu quero dizer depois desse episódio é o seguinte:

  • Homens: batam no peito e assumam integralmente o papel de pai de vocês. Vocês conseguem cuidar sozinhos de seus filhos, vocês podem, vai ser bom, vai ser demais! Se no começo bater uma insegurança, peça ajuda. Você vai ver que logo tira de letra.
  • Mulheres: sejam parceiras nesse processo, façam o pai entrar na rotina da criança, entendam que cuidar da criança de um jeito diferente do seu não é cuidar mal ou errado. Não deem mole: o pai consegue sim. Acredite no pai do seu filho.

Ah, e eu fui para um Retiro Espiritual. Foi DE-MAIS! ❤

– texto por Ana Victória

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<3 Placenta <3

placenta

Essa é uma foto do Enrico olhando (com a mão) a Árvore da Vida que foi feita com placenta dele. A placenta dele e minha. Nossa.

A placenta é um órgão especial e temporário que o corpo mamífero e feminino (ah vá!) desenvolve para nutrir a sua cria. A placenta serve de pulmão, estômago, filtro, barreira para toxinas, produtora de hormônios, sistema de controle de temperatura pros nossos nenês. Para os mamíferos humanos, durante a gravidez ela é medida, controlada, observada, valiosa, abençoada e depois…normalmente…jogada fora, junto com todo o lixo hospitalar do lugar.

Isso, não vou mentir, me deixa um pouco triste.

Me deixa triste porque eu sinto no meu coração que a placenta deve ter um destino mais honroso, e seja pra onde for que ela vá ser encaminhada, que seja acompanhada de muita gratidão.

Ela representa a ligação entre dois mundos, viabiliza a formação de uma vida, é um órgão que a mãe e o bebê dividem, ela tem uma vida curta, valiosa, indispensável e poderosa.

Seja da maneira que for, eu acho que ela merece nosso amor não só enquanto foi útil, mas depois também.

Existe até um processo que transforma a placenta em pó, que por sua vez é colocado em cápsulas e a mãe ingere durante o puerpério. Eu até considerei fazer isso com a minha, mesmo não encontrando muitos dados científicos comprovando a eficácia da prática, mas não tem ninguém em Curitiba que faça e pra mandar pra cidade mais próxima ia ficar muito caro e arriscado.

Meu irmão engraçadão sugeriu fazer um smoothie com a placenta e tomar. Também não foi o caso.

Então o jeito que eu encontrei de honrar essa placenta que esteve dentro de mim, foi fazer uma impressão dela como Árvore da Vida, e depois enterrá-la na floresta, com uma pequena oração.

Muito grata, placenta minha! Você arrasou do começo até o fim!

Quem é que cuida da mãe no trabalho de parto e depois dele?

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Existe uma profissional que hoje em dia não é oficial nas salas de parto de Curitiba e está nas nossas mãos mostrar aos políticos que nossa vontade e de ter assegurado o nosso direito de termos uma doula ao nosso lado.

Conversando sobre gravidez e parto com um amigo semana passada, comentamos da situação um pouco cômica de que quando na sala de parto, assim que o nenê nasce, todas as atenções se voltam pra ele e a mãe fica lá sozinha.

Meu amigo inclusive contou que os profissionais que estavam na sala de parto disseram pra ele “a gente combinou faz anos que vai dar um carro 0km pro primeiro pai que, quando o nenê nascer, ao invés de ir com o nenê, fique com a mãe. Nunca vimos isso acontecer e acho que nem veremos”.

Provavelmente não vão ver mesmo. Até porque se o pai tentar ficar com a mãe, acho quem dará um corridão no pai e mandar ele ir junto com o nenê é a própria mãe. Não tem carro 0km que convença do contrário.

A realidade é que as mães em geral ficam sozinhas de verdade na sala de recuperação depois que o nenê nasce. Eu digo “em geral”, porque existem mães (tipo eu) que não ficaram sozinhas na sala de recuperação, imaginando o que está acontecendo com o nenê, imaginando se está tudo bem consigo mesmas, sozinhas, olhando pro teto, assustadas e desinformadas.

Eu tive um anjo, uma anja melhor dizendo, que ficou ao meu lado durante o trabalho de parto e depois que o foco saiu totalmente de mim e se deslocou pro meu filho. Essa anja, que se chama Simone Tessari, também atende pelo nome de “doula”.

Na estrutura formada para atender uma mulher em trabalho de parto, todo mundo tem uma função, e nenhuma delas oficialmente envolve olhar de verdade pra mãe, dizer que está tudo bem, explicar pra ela o que está acontecendo, dar força, garantir que os planos dela pro parto serão cumpridos, massagear nossas costas durante a contração ou simplesmente segurar nossa mão. Bom, não tinha, agora pode ter pra todo mundo que precisar: a doula.

E pra esses anjos serem oficiais no quadro de profissionais que integram a equipe em uma sala de parto, é bem simples: manifeste-se a favor assinando essa petição https://www.change.org/p/senhores-vereadores-de-curitiba-apoio-ao-projeto-de-lei-das-doulas-em-curitiba

Declare-se a favor de qualquer maneira que você puder.E se você não é de Curitiba, inicie o movimento na sua cidade.

Informe-se sobre como a presença de uma doula melhora o andamento do parto, sobre como mulheres que tiveram doulas ao seu lado se sentiram mais seguras e amparadas durante esse momento tão delicado e depois dele. Chega de mães se sentindo abandonadas emocionalmente durante o trabalho de parto e quase literalmente depois dele.

Empodere as mães e assim, empodere o mundo inteiro.

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créditos da imagem: http://alaya77.blogspot.com.br/p/o-que-e-doula.html

Medo permanente

Semana passada eu tive que ir me consultar com um médico. Ele me foi muito bem indicado e realmente se provou ótimo profissional.

Mas entre a consulta e a conclusão de que valeu a pena, passei por uma situação:

Chegando na sala dele, que era a última num longo corredor daqueles meio escuros de um grande prédio comercial, vi que não tinha ninguém na sala de espera – nem outros pacientes e nem uma secretária. Entrando no consultório, percebi definitivamente que éramos só eu e ele…

Cumprimentei o médico, sentei na cadeira indicada e, com uma pontinha de medo real, vi ele fechando a porta atrás de mim.

Enquanto eu deveria estar pensando em responder e explicar o motivo da minha presença ali, diversas questões bem diferentes dessas passavam pela minha cabeça:
– será que se eu gritar alguém me ouve?
– será que se no exame ele se portar de maneira errada eu vou perceber logo de cara ou só depois?
– será que ele se aproveitaria porque eu estou grávida ou não vai fazer nada porque eu estou grávida?
– coloquei uma blusa muito decotada? (levanto um pouco a blusa discretamente – que já não tinha nada de decote)
– por que eu não trouxe alguém comigo?
– será que tenho força suficiente pra lutar contra ele?

Acredito que para a maioria dos homens – e algumas mulheres talvez, e que bom se for – essa enxurrada de questões trazidas pelo medo de estar totalmente sozinha com um homem desconhecido, em uma posição vulnerável e que exija toque corporal, possa parecer um drama desnecessário da minha parte. Acredito que para a maioria dos homens seja até uma surpresa saber que algo assim possa passar pela cabeça de uma mulher.

Mas eu sei, e acho isso de uma tristeza imensa, que a enorme maioria das mulheres que leu esse texto entendeu os meus medos perfeitamente no 3o parágrafo. Eu nem precisaria ter continuado a escrever.

Então para esse Dia Internacional da Mulher – entre muitas coisas que não giram em torno de ganhar flor e chocolate – eu desejo pra todas as minhas irmãs que não esteja longe o dia em que não vamos mais ter medo e o que o estupro não seja mais uma possibilidade viva em nossas mentes.

uma palavra assustadora

Uma coisa que eu nunca tinha reparado é que em propaganda de absorvente não se menciona uma ÚNICA VEZ a palavra “menstruação” ou suas variações. “Sangue” então, Deus me livre.

ouvimos coisas como “impotência”, “sexo”, nomes de diversas doenças, bactérias assassinas de crianças, “pôneis malditos”, mas que ninguém ouse dizer MENSTRUAÇÃO…porque tudo tem limite.