Quem ri por último…

Por ter uma irmã 3 anos mais velha, eu comecei a pegar balada muito cedo. Em uma delas (que eu acho que era a 2ª edição da Midnight Mansion, se acusem os que lembram) eu devia ter lá pelos meus 14, 15 anos e estava na fila pra comprar uma “água”.

Atrás de mim estavam duas moças. Eis que chega um cara puxar papo com elas. Blá blá blá, etc e tal e ocorre o seguinte diálogo, que eu lembro como se fosse ontem.

– E o que vocês fazem da vida? – pergunta o galante rapaz.

– Eu faço Odonto. – responde uma das coradas mocinhas

– E eu estou fazendo pós em Fisioterapia – a outra complementa.

E a jovem senhorita, que estava de butuca na conversa, ora silenciosamente, com uma certa apreensão: “Meu Deus, quando eu estiver na faculdade eu vou ser muito velha. Socorro.”.

Eu tenho a memória ruim, mas isso ficou na minha mente. Nunca entendi o motivo.

Corta para sábado passado.

Eu, a convite da instituição Junior Achievement, integrei uma banca para escolher o produto Top de Marketing do programa Miniempresa. É um programa voluntário SUPER LEGAL, conduzido em turmas do Ensino Médio de escolas públicas e privadas.

Tá. A banca foi na PUC.

Ficamos lá dentro da sala boa parte da manhã e rapidinho, entre a apresentação de uma equipe e outra, fui ao banheiro.

Saio da sala e dou de cara com um vasto grupo de jovens e eu penso “nossa, não tem tudo isso de aluno apresentando o Miniempresa! Será que alguma escola aproveitou o sábado pra fazer uma visita à PUC?”.

Entrei no banheiro.

Saindo, escuto uma conversa vinda do grupo:

– O professor Tal falou que a prova vai ser discursiva.

– Nossa, só me falta pegar dependência de novo na matéria desse desgraçado.

Sim. Aquela cri-an-ça-da, me doeu perceber, estava toda na faculdade. Não eram de escola nenhuma. Tinha até um que já tinha pego dependência.

Apressei o passo e voltei pra sala.

Coloquei a mão na barriga, pra pelo menos evidenciar que era uma gravidez e não uma pança à toa.

Touché, meninas da fila, touché.

vamos dar risada

Vamos fazer nada?

Passei os últimos 10 dias com o celular desligado, bem guardadinho na bolsa e sem nenhum computador por perto.

Claro, foi fácil…eu estava de férias num resort, na Bahia, com sol, mar, piscina, comida e bebida à vontade. Super tranquilo, dava graças a deus que tava longe do celular e até arrisquei uns olhares julgadores com ar de superioridade bem caprichados para os pobres acorrentados que sem descanso fitavam a tela de seus smartphones. Eu, a desapegada da tecnologia. Eu, diva analógica. Eu, a rainha do perguntar as horas pros outros.

Voltando das férias lhes digo que a crise de abstinência bateu forte, estou bulindo com o celular até no sinal vermelho e hoje mesmo QUASE QUE a primeira coisa que eu fiz assim que acordei foi olhar no celular. (mentira, foi exatamente o que eu fiz).

Acabou o olhar julgador com ar de superioridade pra bonitona aqui.

julgando-os-outros
dsclp, Jesus.

Mas ficou a reflexão. Tá certo que não é uma reflexão exatamente nova, mas continua bem oportuna:

A gente desaprendeu a “fazer nada”?

Não falo das pessoas com a cara enfiada no celular nos ônibus, salas de espera de consultório, cartórios (malditos cartórios) etc. Esse sempre foi o território de livros, revistas, televisões, dedo no nariz… o celular é só mais um passatempo.

Falo do uso do celular enquanto se espera o garçom trazer o cardápio, quando estamos parados no sinal vermelho, quando esperamos o café filtrar, o elevador chegar, a pausa no filme enquanto a outra pessoa vai ao banheiro.

O que a gente fazia nesses microintervalos quando não valia a pena sacar o livro ou revista pois mal ia dar tempo de ler duas páginas? Nada.

Por “nada” leia-se “olhava em volta”: notava o cachorro passando, o passarinho pousando, o casal se beijando, o furo na toalha, o bordadinho do pano de prato que sua madrinha fez, os números do visor do elevador rodando, catava um cabelo preso na sua blusa.

tedio

E às vezes  nesse nada até dava tempo de parar a cabeça um pouco, respirar, pensar em algo, lembrar de alguém ou só ficar com o olhar parado congelado, olhando pro nada, dando um “stop” no corpo e na mente e acordando alguns segundos depois.

Mas hoje o que a maioria faz é pegar o celular e eliminar esses momentos. Eles valiam de alguma coisa? Perdemos algo tendo os minutos de tédio substituídos por olhar o face, o insta, o whats, o snap e tudo mais?

Não sei, não tenho uma resposta definitiva.

Mas tenho um indicativo e uma observação:

O indicativo são as inúmeras matérias escritas para os pais de crianças, pedindo que deixem que os pequenos “se virem”: que inventem suas brincadeiras, que fiquem sem fazer nada, que sentir tédio é a centelha da criatividade, que celular atrapalha isso, que a tecnologia em excesso interfere numa parte importante formação cognitiva e social.

E como criança está para humano como girino está para sapo, não tem jeito de achar que pra adulto é diferente. Pode ser que em menor escala, mas a verdade é a seguinte: o celular em excesso pode nos roubar não apenas valiosos momentos com família e amigos, mas também aqueles pequenos momentos em que uma grande ideia ia aparecer na sua cabeça ou em que você ia ver um beija-flor ou só dar uma grata paradinha na correria do seu dia.

 

sapo
e se não servir pra nada sentir tédio, pelo menos serve pro celular não cair na sua cara enquanto você mexe nele deitado. Esse sapo está em segurança.

Já a observação foi lá no resort mesmo, e uma das boas: como eu era uma das poucas adultas sem estar com a cara enfiada no celular, eu fui a primeira (ou uma das) de muitas pessoas que estavam sentadas nas mesas, no pátio da piscina, a ver a lua cheia nascendo linda, amarelona, deslumbrante por detrás do coqueiral.

Decidi que eu quero ser essa pessoa que vê a lua mais vezes por que não estava pegando os whatsapp e desejo que eu esteja acompanhada por cada vez mais gente. Virei defensora dos momentos de microtédio.

se-tedio-e-tendencia-hoje-eu-to-na-moda

 

 

– texto por Ana Victória

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Reprovada e com orgulho

Esses dias meu marido veio me contar que um amigo nosso estava triste e irritado, porque a escola da filha dele decidiu que ela não passaria de ano, não estava pronta pra próxima série.

– Mas amor, você não contou pra ele sobre mim?!, perguntei eu, ansiosa.

– Sim, amor, contei. Acho que ele se sentiu um pouco melhor, mas é difícil.

Difícil pra quem, eu me pergunto…acho que é mais difícil pros pais do que pra criança.

Além disso, quando alguém comenta comigo que “vou ver na escola se eles não podem deixar meu filho pular uma série porque pra ele está muito fácil” – eu me preocupo muito. Rezo pra que a escola seja extremamente atenta e criteriosa nesse “pulo” proposto.

Quando vejo pais conhecidos se preparando pra fazer um furdunço porque a escola quer segurar o filho na mesma série, eu tenho vontade de fazer eles sentarem na minha frente e contar a minha história. Às vezes eu faço exatamente isso.

Ela começa assim: eu reprovei a 4ª série.

Pro desespero, preocupação dos meus pais, familiares e professores. Pro choque dos meus amiguinhos e colegas. Pra minha vergonha misturada com uma certa apatia. Reprovei bem reprovadinha.

 

reprovei
 

MENTIRA! REPROVEI SIM! HAHAHAHA (calma mãe, to rindo da piadinha e não de ter reprovado)

 

 

Um dos sentimentos comigo era sim a apatia, porque lembro claramente da minha professora particular de matemática me perguntando, com carinho e preocupação, se eu não estava triste de reprovar, e eu respondendo queSim, até que estava, mas eu estava cansada”. E ela me olhou com um olhar de entendimento, e disse ok, Ana, então está tudo bem”.

Essa frase dela me marcou, tanto que lembro até hoje. Está “tudo bem”, profe? Para mim naquele momento não estava “bem” e para os meus pais certamente – e com razão – também não estava.

A gente sabe que crianças, dentro da simplicidade perfeita com que se expressam, abrem uma janela grande e sem meandros pros seus sentimentos. Mais tarde eu fui entender o que eu quis dizer com “estar cansada”.

Eu nasci no final do ano, no dia 30 de novembro. E se pra muitos dos que nasceram no fim do ano não existe muita diferença, tanto intelectual quanto social, entre eles os coleguinhas que nasceram mais cedo, para mim fazia, e muita!

Me sentia meio tonta, meio “de fora” entre os meus amigos que nasceram no mesmo ano. Não me encaixava bem no grupo, me relacionava com um certo receio, demorava mais do que eles para entender o que a professora explicava, não entendia os conflitos normais da idade e muitas vezes tinha amiguinhas brabas comigo, mas eu não entendia o que eu tinha feito! Eu era imatura perto deles, vivia na defensiva – e sim, estava cansada! Quem não estaria?

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eu o tempo todo antes de reprovar.

Porém, toda essa complicação não estava clara para mim nem para os meus pais até o momento em que eu, devidamente reprovada, entrei numa sala cheia de novos colegas, mas que tinham nascido no ano seguinte.

Assim, devagar, conforme o ano letivo passava, muitas inseguranças minhas sumiram, e pela primeira vez me senti totalmente confortável e “encaixada” no ambiente onde estava. É certo que não me dei conta disso no primeiro instante que pisei na sala de aula, na verdade não sei quando foi que percebi o quanto minha vida na escola tinha mudado, o quanto ela estava melhor, mas eu com certeza percebi.

E o que antes era uma vergonha para mim, virou algo a agradecer. É uma história pra contar e algo que mudou a maneira como eu me enxergava. Minha autoestima aumentou muito!

Socialmente foi assim. E intelectualmente tenho a relatar que depois de reprovar eu continuei penando nas matérias exatas, e para o choque de todos (o maior foi meu) isso não deixou de me possibilitar estar entre as 200 maiores notas do Terceirão em que eu estudava, de passar em 1º lugar em um dos cursos para os quais eu prestei vestibular e de me formar em 8º lugar geral da faculdade que cursei.

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só Jesus na causa.

Isso deixou uma marca e ainda hoje quando alguém diz que me acha inteligente eu fico um pouco surpresa.

Vejo que dentro do nosso sistema educacional tradicional a idade e ano de nascimento é o único fator pra determinar a classe em que a criança vai estar. Eu acho um ótimo começo, mas não deveria parar aí. Deveriam investigar um pouco mais. Querer saber mais a fundo.

Depois de mais velhos, tanto faz se a pessoa nasceu em 1º de janeiro ou 31 de dezembro do mesmo ano, ou se existem anos de distância entre elas, porque as diferenças se diluem, já que amadurecemos em velocidades diferentes.

Porém, entre nenês a diferença de um ano é abissal e entre crianças não é tão grande, mas continua a ser considerável, e isso não deveria ser ignorado. Essa diferença não desaparece assim que a criança está em idade escolar!

Num país cheio de analfabetos funcionais e que só faz piorar seus índices educacionais ano após ano, esse realmente é um problema no fim da lista, mas ainda assim está na lista.

– texto por Ana Victória

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Tudo acaba

Rua Bruno Filgueira, 387. Curitiba – PR.

Antiga, charmosa, cercada de jardim.
Cada vez que me deparo com uma jóia dessas encravada no meio dos arranha-céus, paro pra admirar, não importa se estou atrasada ou se está chovendo.
A história dela é mais uma que está perto de chegar ao fim, pois enquanto eu olhava pra ela, colada no portão, um moço circulava pelo jardim e assim ele disse, quando me viu:
– A senhora idosa que morava aí morreu, o sobrinho já vendeu.
– E será que vão reformar?, pergunto eu com esperança.

– Ah não, acho que vão demolir.

– Ah…, aceito eu, me reconhecendo ingênua, mais uma vez.

– Pois é. Que pena, é linda né? Você precisa ver dentro, tem móveis lindos! Estamos desmontando e esvaziando.

– E eu posso entrar pra ver?!

– Sabe que até podia, mas me deixaram trancado pra dentro, estou esperando virem abrir o portão pra mim.

Assim se vai a casinha.
Não sei se é um final triste ou feliz, pois não sei das coisas que se passaram dentro dela.

Mas eu sonho e imagino. Imagino as crianças que cresceram dentro dela, as festas que ela abrigou, os casais que no portão dela namoraram.
E sonho que o futuro dela poderia ter sido uma clínica de qualquer coisa, um restaurante, uma escola. Mas não, é o fim.
E quando eu vejo uma construção dessas vindo abaixo, pra não sofrer como eu sofria antes, eu repito pra mim mesma “Tudo acaba.”. Infelizmente, ultimamente em Curitiba tenho precisado repetir muito esse mantra.
Espero que alguém lembre por muito tempo de você com carinho, casinha.
Espero que você tenha visto e proporcionado dias felizes e sido um bom abrigo.

Tudo acaba, casinha querida.

– texto por Ana Victória

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O que falta num pai para conseguir cuidar de um filho?

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parece que não falta nada

No fim de semana passado eu viajei. Fiquei fora de 6ª feira bem cedinho até domingo no meio da tarde. E quem eu deixei em casa? Meu filho de 1 ano e 2 meses e o meu marido. E esse marido (não) por acaso é o pai desse filho.

E no processo de organizar a viagem, preparativos para mim mesma e para quem iria ficar, comecei a notar uma tendência que para mim foi inesperada: mais do que querer saber onde eu ia, o que eu ia fazer, as pessoas queriam saber quem ia ficar com o meu filho.

Me entristece um pouco dizer que 90% das pessoas, homens e mulheres, de todas as idades, ficaram impressionadas e/ou confusas ao saber que quem ia cuidar do nenê era o próprio pai.

“Mas ele consegue?!” ,”Como? ninguém vai ajudar ele?!”, “você tem coragem?!”.

As respostas para as perguntas são: com certeza absoluta, a princípio não, com certeza absoluta.

Não preciso nem entrar na questão de que se fosse o meu marido viajando, o contrário não ia acontecer. O filho é responsabilidade exclusiva da mãe, correto? Aham, vai nessa.

Pra mim a mensagem que fica, depois de concluir pela centésima vez que eu fiz uma boa escolha em questão de pai de filho, é que não só as mulheres precisam parar de pensar em homens como “fadados ao sucesso” no campo profissional, mas também precisam parar de pensar neles como “incompetentes ou coitadinhos” no campo doméstico/familiar.

O que falta num pai para conseguir cuidar do filho? Gente, não deveria faltar nada. Não falta NADA. Homens são tão capazes de afeto, amor, cuidado, dedicação quanto são as mulheres. São sim. Basta eles quererem e basta as mulheres darem espaço.

Não dá pra negar que muitos homens escapam dessa e se recusam, muitos se fazem de galinha morta pra andar de Kombi – sobre esses, tenho a dizer apenas: sinto muito, você está cometendo um grande vacilo. Adeus para esses homens, não quero falar deles.

Mas se formos falar do papel que a mãe tem nisso, acho que às vezes pode faltar confiança no pai, ou ter excesso de peninha.

Então, o que eu quero dizer depois desse episódio é o seguinte:

  • Homens: batam no peito e assumam integralmente o papel de pai de vocês. Vocês conseguem cuidar sozinhos de seus filhos, vocês podem, vai ser bom, vai ser demais! Se no começo bater uma insegurança, peça ajuda. Você vai ver que logo tira de letra.
  • Mulheres: sejam parceiras nesse processo, façam o pai entrar na rotina da criança, entendam que cuidar da criança de um jeito diferente do seu não é cuidar mal ou errado. Não deem mole: o pai consegue sim. Acredite no pai do seu filho.

Ah, e eu fui para um Retiro Espiritual. Foi DE-MAIS! ❤

– texto por Ana Victória

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Amores condicionais

Vivemos em tempos de extremos.

Pelo menos nas redes sociais, pouco vemos opiniões, posicionamentos, caminhos que buscam o equilíbrio, o bom senso e a tolerância. Esse comportamento extremo se espalha pelas relações da carne e osso e tenho certeza de que isso não traz nada de bom.

Qualquer opinião, qualquer frase ou declaração mais forte pode balançar. O discurso do “crie ‘tal coisa’, mas não crie expectativas”, em geral vem com uma carga de “indiretinha” pra alguém e amargor. O conceito de “não ter expectativas” na verdade deveria emanar de uma bonita postura de desapego, que sugere aceitar o que o outro tem pra oferecer e se satisfazer com isso, mas por muitos acaba sendo distorcido, e parece que não ter expectativas virou um jeito de mostrar desprezo.

expectativas
até que é engraçado, mas tá errado! não é nada disso! (e deixe a galinha quieta na dela, por favor).
Ultimamente, o jeito que eu tenho percebido que pessoas, especialmente mulheres, dos meus círculos do facebook encerraram um relacionamento amoroso é quantidade de “frases motivadoras”, indiretas não tão indiretas, selfies acompanhadas de frases impactantes…e por aí vai. Basta começar a ver uma pessoa postando muito disso, fazendo muita questão de mostrar que está por cima, que está arrasando, que eu vou conferir o perfil. O normal é descobrir que onde antes dizia “casado” ou “namorando”, agora diz “solteiro”, ou não diz mais nada. De onde vem esse comportamento performático, que busca mostrar da forma mais protegida possível que se está bem, que a vida seguiu e que o outro em nada nos afetou com o seu afastamento? Quem não sofre com o fim de um relacionamento? Estamos em tempos carentes e inseguros, mas disfarçados de baladinha top.

Algo que me deixa um pouco perplexa é a quantidade de pessoas que desfazem amizades nas redes sociais com pessoas de seus círculos que passaram a se declarar pró algo que a pessoa é contra, ou vice-versa. Uma outra forma de mostrar essa suficiência, que pretende provar que é muito fácil cortar relações com o outro, é a não tão recente mania de declarar “estou desfazendo a amizade com qualquer um que siga Fulano de Tal”.

Esse Fulano de Tal pode (ou podia né?) ser a Dilma, pode ser o Aécio, o Danilo Gentili. o Sakamoto, o Jean Wyllys, o Feliciano ou qualquer outra celebridade de qualquer categoria que inspire discussão e opiniões (extremamente) divergentes. Você com certeza consegue citar algumas.

O exemplo mais presente e atual é o tal do Bolsonaro, as paixões e ódios que inspira. Não vou nem entrar nos termos do que significa ou representa essa caricatura política, esse personagem que só é possível por conta da polarização atual, criatura que para mim é o nosso very own Donald Trump. Ele é uma piada, uma piada de mau gosto, mas uma piada.

Minha vontade é de ir lá, curtir o perfil do Bolsonaro só pra ver quem me rifa sem dó e quem vai vir conversar comigo pra tentar entender, de coração aberto, o porquê de eu ter curtido o perfil dele. Seria um experimento interessante.

O que eu quero dizer é que me impressiona não a existência do Bolsonaro – assim como ele existem muitos – mas sim a quantidade de pessoas dispostas a cortar relações, seja do calibre que for essa relação, por causa dele. Como somos descartáveis.

descartáveis
=(
E as fortes opiniões divergentes sempre existiram, mas parece que muitos se sentem compelidos a um posicionamento quando a pessoa declara sua opinião num lugar tão permanente quanto o Facebook. E se você não acha o Facebook permanente, saiba que é impossível apagar o seu perfil, ele ficará gravado pra sempre.

Da minha parte, não acredito ter conhecido alguém descartável. Conheço gente de quem não gosto de estar perto, conheço gente com quem evito conversar, mas dificilmente “queimo” um relacionamento, e jamais por uma opinião divergente em relação a um assunto. Pelo contrário, acredito que declarar em alto e bom tom que ESTÁ CORTANDO RELAÇÕES COM AQUELA PESSOA atrai ainda mais a energia dela pra perto de você. O melhor é se retirar em silêncio.

E está aí uma coisa em falta nestes tempos de hiper-interatividade oca, verborragia, opiniões contundentes e milhões de experts sobre coisa nenhuma: silêncio. Silêncio e reflexão.

Ah, e amor.

Amor nunca é demais.

Gente que se amontoa pra ver acidente

Dia desses saiu uma matéria em diversos jornais, comentando da queda da ciclovia lá no Rio de Janeiro.

Teve de tudo: teve desculpinha sem-vergonha básica das autoridades, teve mil técnicos que disseram que era óbvio que ia acontecer (depois que aconteceu), teve o Roger do Ultraje A Rigor falando besteira…mas o acontecimento relacionado mais inesperado e talvez mais chocante foi o de pessoas que, ao lado dos corpos dos que morreram nessa tragédia, jogavam tranquilamente seu rotineiro futebol.

mortos na praia depois da queda da ciclovia
foto por Felipe Dana

Deixando de lado o tópico óbvio e sério da banalização da violência e calamidade em que nos encontramos no nosso país, que apresenta números de guerra civil, digo o seguinte: se é irritante a quantidade de curiosos que se amontoam cada vez que acontece um acidente, ainda é melhor do que todo mundo ignorando e seguindo suas vidas como se nada tivesse acontecido.

É mesmo de tirar do sério: engarrafamento gigante, você pensa “deve ter acontecido algo”, e aconteceu mesmo: faz 5 horas que deu um acidente, se houve algum ferido ou pior, os devidos encaminhamentos já foram dados faz “ó” – mas a galera continua passando beeemmm devagarinho ao lado dos carros batidos, olhando com um olhão arregalado e esticando o pescoço pra ver tudo nos mínimos detalhes, uma multidão de curiosos. E é igual com os acidentes, assaltos, fatalidades de todo tipo que acontecem na rua, na chuva, na fazenda.

Freud explica. O humano tem fascínio pela morte, pela morbidez, é algo que nos causa medo, pavor, curiosidade, queremos ver, mas não queremos. É humano, demasiadamente humano.

Então, se serve de consolo, no momento em que você dá graças a Deus por não ter uma bazuca no carro, porque se não ia resolver a curiosidade das lesmas na sua frente bem rapidinho, pense que podia ser pior: podia estar todo mundo passando reto, não dando a mínima e mesmo depois de 5, 10, 20 horas passadas, a vida ia continuar e as pessoas envolvidas no acidente e esperando ajuda, ainda iriam estar esperando.

Texto por Ana Victória Foganholi

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Chinela com meia

isso mesmo

Pessoas, muitas pessoas, pessoas até demais, ficam por aí afirmando que “as pessoas são muito mais elegantes no frio”.

Todos muito finos e nobres né?
No calor não, no calor todo mundo é tosco e grudento. Tá.

Pois eu digo que no inverno todo mundo só é elegante na casca, ou no máximo uma camada abaixo.

Porque depois dela, meus amigos, começa O FESTIVAL de blusa cheia de bolinha, blusas de mil cores diferentes (porque ninguem vai ver mesmo) camiseta véia furada, ceroula, pijama, calçolas e afins.

E não vou nem falar do nariz escorrendo, mãos que são lavadas bem rapidinho pq a água tá fria e você não quer arregaçar a manga, ok?

Então, quando você tiver olhando o povo todo muito ELEGANTHI na rua, pense nas outras camadas de roupa.

texto por Ana Victória Foganholi

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Estamos em obras, contamos com as sua compreensão

Quando a gente vira mãe, um novo mundo se abre diante dos nossos olhos.

Essa frase é básica, é clichê e é muito verdadeira – como a maioria dos clichês.

São montes de informações, sentimentos, necessidades, tarefas e responsabilidades que se antes eram inexistentes, agora meio que dominam a sua vida e o tempo que antes era vago.

Isso por mim, que refleti muito antes de decidir me tornar mãe, era esperado. O que não era esperado era a dificuldade que o meu cérebro ia ter de absorver esse novo mundo.

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Não dá, não consigo lembrar das coisas! As coisas do nenê, não esqueço nada…tá, ou quase nada. Mas o resto, gente! Meu marido já nem tem mais raiva de repetir a mesma coisa pra mim, se conformou. No trabalho tenho que anotar as coisas em mil lugares diferentes, esqueço do que me foi dito semana passada. A coisa simplesmente não anda do jeito que andava antes. Quando menos espero, percebo que parei de prestar atenção na conversa, no trânsito, no filme. Tô lá com cara de peixe, pensando em sei lá…papinha, protetores de tomada ou que não paguei uma conta.

Tarefas simples ficam semanas sem ser executadas, mensagens ficam sem resposta, assuntos ficam esperando uma definição minha. É um nó, um nozão cego.

Como, gente? Como as pessoas fazem com mais do que um filho? Como a minha mãe, que teve quatro, fez? Onde vai essa montanha de preocupações e deveres?

É como se meu cérebro estivesse em obras desde que o Enrico nasceu. Empenhado na construção uma sala (enorme) pra armazenar e gerenciar todas as coisas relativas ao nenê, mas essas obras estão muito atrasadas.

Aliás, acho que essas obras são do governo federal. Não, acho que são do governo estadual que não é do mesmo partido do governo federal, então pararam de enviar verba. Acho que tem um processo de impeachment no meu cérebro.

O resultado disso tudo é que está tudo misturado, tem caixas sobre maternidade no lugar que ficam as coisas de trabalho, na sala de informações cotidianas, de relacionamentos sociais. Imaginem como está a sala que guarda as coisas relativas à matemática – ela já era minúscula, agora então…impossível.

Eu estou aguardando pacientemente, acho que uma hora as coisas vão se organizar e cada coisa vai ser colocada em seu lugar. Além disso, estou confiante de que no momento que isso acontecer, eu vou decidir engravidar de novo. É claro.

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Também pode acontecer de que estou esperando à toa, e a vida agora é o caos. Não tem sala, não tem organização, tem só bagunça e coisas por fazer – e vai piorar. You know nothing, Jon Snow.

Nos resta orar e confiar que o pessoal das muralhas vai conseguir manter o reino a salvo dos Outros e a organização vai ser restaurada.

Viram como eu misturei maternidade com Game of Thrones? Nada a ver? Normal. Eu faço isso agora.

Se segurem.

texto por Ana Victória Foganholi

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