Vamos fazer nada?

Passei os últimos 10 dias com o celular desligado, bem guardadinho na bolsa e sem nenhum computador por perto.

Claro, foi fácil…eu estava de férias num resort, na Bahia, com sol, mar, piscina, comida e bebida à vontade. Super tranquilo, dava graças a deus que tava longe do celular e até arrisquei uns olhares julgadores com ar de superioridade bem caprichados para os pobres acorrentados que sem descanso fitavam a tela de seus smartphones. Eu, a desapegada da tecnologia. Eu, diva analógica. Eu, a rainha do perguntar as horas pros outros.

Voltando das férias lhes digo que a crise de abstinência bateu forte, estou bulindo com o celular até no sinal vermelho e hoje mesmo QUASE QUE a primeira coisa que eu fiz assim que acordei foi olhar no celular. (mentira, foi exatamente o que eu fiz).

Acabou o olhar julgador com ar de superioridade pra bonitona aqui.

julgando-os-outros
dsclp, Jesus.

Mas ficou a reflexão. Tá certo que não é uma reflexão exatamente nova, mas continua bem oportuna:

A gente desaprendeu a “fazer nada”?

Não falo das pessoas com a cara enfiada no celular nos ônibus, salas de espera de consultório, cartórios (malditos cartórios) etc. Esse sempre foi o território de livros, revistas, televisões, dedo no nariz… o celular é só mais um passatempo.

Falo do uso do celular enquanto se espera o garçom trazer o cardápio, quando estamos parados no sinal vermelho, quando esperamos o café filtrar, o elevador chegar, a pausa no filme enquanto a outra pessoa vai ao banheiro.

O que a gente fazia nesses microintervalos quando não valia a pena sacar o livro ou revista pois mal ia dar tempo de ler duas páginas? Nada.

Por “nada” leia-se “olhava em volta”: notava o cachorro passando, o passarinho pousando, o casal se beijando, o furo na toalha, o bordadinho do pano de prato que sua madrinha fez, os números do visor do elevador rodando, catava um cabelo preso na sua blusa.

tedio

E às vezes  nesse nada até dava tempo de parar a cabeça um pouco, respirar, pensar em algo, lembrar de alguém ou só ficar com o olhar parado congelado, olhando pro nada, dando um “stop” no corpo e na mente e acordando alguns segundos depois.

Mas hoje o que a maioria faz é pegar o celular e eliminar esses momentos. Eles valiam de alguma coisa? Perdemos algo tendo os minutos de tédio substituídos por olhar o face, o insta, o whats, o snap e tudo mais?

Não sei, não tenho uma resposta definitiva.

Mas tenho um indicativo e uma observação:

O indicativo são as inúmeras matérias escritas para os pais de crianças, pedindo que deixem que os pequenos “se virem”: que inventem suas brincadeiras, que fiquem sem fazer nada, que sentir tédio é a centelha da criatividade, que celular atrapalha isso, que a tecnologia em excesso interfere numa parte importante formação cognitiva e social.

E como criança está para humano como girino está para sapo, não tem jeito de achar que pra adulto é diferente. Pode ser que em menor escala, mas a verdade é a seguinte: o celular em excesso pode nos roubar não apenas valiosos momentos com família e amigos, mas também aqueles pequenos momentos em que uma grande ideia ia aparecer na sua cabeça ou em que você ia ver um beija-flor ou só dar uma grata paradinha na correria do seu dia.

 

sapo
e se não servir pra nada sentir tédio, pelo menos serve pro celular não cair na sua cara enquanto você mexe nele deitado. Esse sapo está em segurança.

Já a observação foi lá no resort mesmo, e uma das boas: como eu era uma das poucas adultas sem estar com a cara enfiada no celular, eu fui a primeira (ou uma das) de muitas pessoas que estavam sentadas nas mesas, no pátio da piscina, a ver a lua cheia nascendo linda, amarelona, deslumbrante por detrás do coqueiral.

Decidi que eu quero ser essa pessoa que vê a lua mais vezes por que não estava pegando os whatsapp e desejo que eu esteja acompanhada por cada vez mais gente. Virei defensora dos momentos de microtédio.

se-tedio-e-tendencia-hoje-eu-to-na-moda

 

 

– texto por Ana Victória

Página no Facebook: Não gostou? Faz o seu. 

 

 

8 comentários em “Vamos fazer nada?

  1. Amei, como tudo o que você se propõe a refletir e compartilhar!
    Mas, preciso confessar… ainda tá bem difícil (ou impossível!) acordar e não pegar o celular, me propus a fazer isso, mas ainda não consegui nem uma vez. Já to tentando há uns meses. É mais forte que eu! O_O
    Te amo!
    Miri

    Curtido por 1 pessoa

    1. Grata, amada!! Também é mais forte do que eu na maioria dos dias! Tenho tentado substituir com escrever meus sonhos. Mas o jeito vai ser comprar o bom e velho despertador mesmo e dormir com o celular longe de mim…. é fueda. Amo amo e amo!

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  2. Amei tudo mas.como depois da invenção de foto no celular penso duas vezes se devo levar máquina fotográfica, eu iria correndo pegar o celular para foto da lua que eu amooo e consequente aquela olhadinha básica

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    1. então, né, a gente tava com a câmera profissional, eu corri tirar foto.
      mas o bom é ter uma digital pequena sempre à mão pra esses momentos.
      mesma coisa que ter despertador (o bom e velho) ao invés de usar o despertador do celular.
      assim aos poucos a gte vai se libertando!

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