Amores condicionais

Vivemos em tempos de extremos.

Pelo menos nas redes sociais, pouco vemos opiniões, posicionamentos, caminhos que buscam o equilíbrio, o bom senso e a tolerância. Esse comportamento extremo se espalha pelas relações da carne e osso e tenho certeza de que isso não traz nada de bom.

Qualquer opinião, qualquer frase ou declaração mais forte pode balançar. O discurso do “crie ‘tal coisa’, mas não crie expectativas”, em geral vem com uma carga de “indiretinha” pra alguém e amargor. O conceito de “não ter expectativas” na verdade deveria emanar de uma bonita postura de desapego, que sugere aceitar o que o outro tem pra oferecer e se satisfazer com isso, mas por muitos acaba sendo distorcido, e parece que não ter expectativas virou um jeito de mostrar desprezo.

expectativas
até que é engraçado, mas tá errado! não é nada disso! (e deixe a galinha quieta na dela, por favor).
Ultimamente, o jeito que eu tenho percebido que pessoas, especialmente mulheres, dos meus círculos do facebook encerraram um relacionamento amoroso é quantidade de “frases motivadoras”, indiretas não tão indiretas, selfies acompanhadas de frases impactantes…e por aí vai. Basta começar a ver uma pessoa postando muito disso, fazendo muita questão de mostrar que está por cima, que está arrasando, que eu vou conferir o perfil. O normal é descobrir que onde antes dizia “casado” ou “namorando”, agora diz “solteiro”, ou não diz mais nada. De onde vem esse comportamento performático, que busca mostrar da forma mais protegida possível que se está bem, que a vida seguiu e que o outro em nada nos afetou com o seu afastamento? Quem não sofre com o fim de um relacionamento? Estamos em tempos carentes e inseguros, mas disfarçados de baladinha top.

Algo que me deixa um pouco perplexa é a quantidade de pessoas que desfazem amizades nas redes sociais com pessoas de seus círculos que passaram a se declarar pró algo que a pessoa é contra, ou vice-versa. Uma outra forma de mostrar essa suficiência, que pretende provar que é muito fácil cortar relações com o outro, é a não tão recente mania de declarar “estou desfazendo a amizade com qualquer um que siga Fulano de Tal”.

Esse Fulano de Tal pode (ou podia né?) ser a Dilma, pode ser o Aécio, o Danilo Gentili. o Sakamoto, o Jean Wyllys, o Feliciano ou qualquer outra celebridade de qualquer categoria que inspire discussão e opiniões (extremamente) divergentes. Você com certeza consegue citar algumas.

O exemplo mais presente e atual é o tal do Bolsonaro, as paixões e ódios que inspira. Não vou nem entrar nos termos do que significa ou representa essa caricatura política, esse personagem que só é possível por conta da polarização atual, criatura que para mim é o nosso very own Donald Trump. Ele é uma piada, uma piada de mau gosto, mas uma piada.

Minha vontade é de ir lá, curtir o perfil do Bolsonaro só pra ver quem me rifa sem dó e quem vai vir conversar comigo pra tentar entender, de coração aberto, o porquê de eu ter curtido o perfil dele. Seria um experimento interessante.

O que eu quero dizer é que me impressiona não a existência do Bolsonaro – assim como ele existem muitos – mas sim a quantidade de pessoas dispostas a cortar relações, seja do calibre que for essa relação, por causa dele. Como somos descartáveis.

descartáveis
=(
E as fortes opiniões divergentes sempre existiram, mas parece que muitos se sentem compelidos a um posicionamento quando a pessoa declara sua opinião num lugar tão permanente quanto o Facebook. E se você não acha o Facebook permanente, saiba que é impossível apagar o seu perfil, ele ficará gravado pra sempre.

Da minha parte, não acredito ter conhecido alguém descartável. Conheço gente de quem não gosto de estar perto, conheço gente com quem evito conversar, mas dificilmente “queimo” um relacionamento, e jamais por uma opinião divergente em relação a um assunto. Pelo contrário, acredito que declarar em alto e bom tom que ESTÁ CORTANDO RELAÇÕES COM AQUELA PESSOA atrai ainda mais a energia dela pra perto de você. O melhor é se retirar em silêncio.

E está aí uma coisa em falta nestes tempos de hiper-interatividade oca, verborragia, opiniões contundentes e milhões de experts sobre coisa nenhuma: silêncio. Silêncio e reflexão.

Ah, e amor.

Amor nunca é demais.

2 comentários em “Amores condicionais

  1. Guardei uns minutos desta sexta-feira 13 para me atualizar com os seus pensamentos.
    Sempre me peguei refletindo sobre relacionamentos “descartáveis” e o quanto eu não quero isso para a minha vida.
    “Eu gosto é do gasto”, tipo aquele tênis velho que há pelo menos uma década faz parte da sua vida.

    Amo-te.
    Obrigado pelas palavras.

    Curtido por 1 pessoa

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