Quero reclamar de uma coisa

Vamos reclamar um pouco de uma coisa que todo mundo só fala bem?
De uma coisa em que um exército de gente diz que vive, trabalha, come e toma banho pensando?

Eu vou falar mal de sexo? Jamais.
Eu vou falar mal de viajar.

Antes de qualquer coisa, se vai começar o papinho de “ai, reclama à toa”, “first world problems”, “fica em casa então”, já pare de ler por aqui. Não permita que eu te irrite com o meu texto, e acima de tudo: não me irrite porque se irritou com o meu texto. Vá ler algo que te deixe feliz. Feliz que nem eu vou ficar de fazer essa linda lista, chamada “7 coisas que me fazem ter preguiça de viajar.”.

1. É um saco chegar no destino.

tsa-probe
A não ser que o trajeto vá ser lindo e feito por terra e você não esteja dirigindo o tempo todo, dá trabalho chegar no lugar, é chato, cansa, dói as costas, incha o pé, você come salgadinho e depois se arrepende.

Se é de avião também pode ser frio, fedido, barulhento, apertado, fora os preços abusivos e a galera super agilizada pra cacete na fila do raio-x.

2. É caro

Desde que viajar virou hype, a coisa tem ficado crescentemente absurda. Passagem aérea é a única coisa que se popularizou e mesmo assim dói.

Se você for viajar dentro do Brasil então, ahhh meu amigo. Cobram, ou tentam cobrar, 800 reais pela diária num quartinho que tem o basicão, em uma pousadinha chinfrim construída com material de segunda, só porque o lençol tem 234 milhões de fios, feitos de algodão tibetano cultivado em solo abençoado pelo iaque sagrado. Vá!

Daí claro, sempre tem aquele que diz “mas é possível viajar gastando apenas 10 dólares por dia se você tiver imaginação”. “Imaginação”, gente, significa almoçar todo dia pão seco com manteiga sentado no banco da praça, dormir num hostel em um quarto unissex que comporta 42 pessoas, ou usar o couch surfing e contar com a sorte que Deus lhe deu, comprar uma passagem aérea que inclui 3 escalas com 10 horas de duração cada uma, ficar bebendo aos golinhos a única cerveja que você pode comprar (pelo menos você vai ficar alegrinho bem fácil, já que tá comendo pouco) e aí por diante.

Viva a imaginação!

 

3. F.O.M.O. (fear of missing out) ou “tenho que fazer TUDOOO que tem pra fazer”

visit all places

Vem cá: tamo jogando War? Você quer conquistar o máximo de território possível? Penso muito nesse desespero que o povo em geral tem quando chega em um destino. Dá pra dormir até um pouco mais tarde hoje? Não. Dá pra parar pra almoçar com calma? Não. Podemos ficar mais tempo aqui sentados nessa praça e não ir no terceiro museu da viagem? Jamais. Podemos visitar só duas cidades nesse país ao invés de fazer 37 cidades em dois dias? Por cima do meu cadáver.

Eu moro em Curitiba e não me lembro da última vez que fui no Jardim Botânico, isso não faz de mim menos curitibana e eu conheço a cidade até que bem. Por que é a gente tem que ter agonia de ver todos os pontos turísticos, sendo que a essência da cidade, de um país, é muito muito muito mais do que isso?

4. Armadilha pra turista.

Ao invés de apresentar os meus argumentos pra falar de como turista pode ser maltratado e enganado, eu vou contar uma historinha: uma vez, numa ilha do Caribe, um casal em lua-de -mel recebeu indicações pra ir no JARDIM BOTÂNICO COM CACHOEIRA E PISCINA DE ÁGUAS MINERAIS.

O passeio era bem indicado e BEM cobrado. Chegando lá, o casal, que era brasileiro, conheceu espécies na flora nativa, como a incrível samambaia, o exótico cacau e muitas outras agrupadinhas num jardim do tamanho da casa da vó. Mas o ponto alto do passeio foi a cachoeira e as luxuriantes piscinas. Mas não preciso explicar, veja por si mesmo nas fotos abaixo e tire suas próprias conclusões.

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A CACHOEIRA DE ÁGUA MINERAL: uma cachoeirinha, que caía numa pocinha meio enlameada , de onde era proibido se aproximar. Aquela mulher de blusa amarela com a mão na cintura ilustra bem o sentimento geral de empolgação e maravilhamento.

 

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exuberantes piscinas de água mineral até onde a vista alcança. 

 

5. Mala

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A mala é mala, a mala é uma mala sem alça e sem rodinha. Se a pessoa que vai viajar é mulher, daí que vira motivo de insônia nos dias que precedem a viagem. E se está indo pra um lugar que tá quente e você mora num lugar que tá frio? Vai carregar casacão na ida e na volta e aguentar esse casacão atravancando a mala durante a viagem toda. Mas não precisa ter casacão, a mala por si só incomoda muito.

A única hora em que você deixa de odiar a mala é na hora em que está esperando ela na esteira do aeroporto, as malas vão rareando, cada vez menos, todo mundo já foi embora e nada da sua mala. Daí você é doido pela mala, tudo que você quer é tocar nela, sentir o seu peso, dizer que ama. Ela aparece, aqueles momentos de amor ocorrem e depois a raiva volta. Ela não aparece, direcionamos a raiva destinada à mala pra companhia aérea.

Daí também tem as roupas que INCHAM e daí a mala não fecha na hora de voltar? Vamos praticar a arte do desapego e levar pouca coisa – o quê significa que você vai ter que lavar roupa na pia do hotel. Ou isso ou precisamos da mala da Mary Poppins ou de “imaginação”(nesse caso leve bastante desodorante).

6. Chineses

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Eu não vou dizer mais nada, só deixar essa fotinho aqui.

 

7. Perrengues

Ahhh, o famoso perrengue de viagem. Eles são as futuras histórias engraçadas que vamos contar na mesa de bar, eles são o que dá gosto e até o que até certo ponto torna a viagem memorável. Mas rapaz, na hora em que estamos vivendo o perrengue a gente quer a nossa mãe, a gente quer a nossa casa e nosso travesseiro. Sono, frio, muito frio, fome, bolha no pé, objetos furtados, hotel ter perdido sua reserva e a cidade tá lotada, dias sem tomar banho, a mala não ter chegado, um chulé inacreditável empesteando o quarto do hostel, o lugar que você alugou o carro fechou porque seu voo atrasou e você chegou tarde e vai custar um rim pra chegar na cidade, infecção intestinal, subestimar a dificuldade da estrada e se pegar segurando o choro de tanto medo a cada curva feita à beira do precipício, costela quebrada, não encontrar taxi de noite numa cidade hostil, se perder até o ponto do desespero, estar longe do seu marido num país muçulmano e pobre…tudo isso já aconteceu comigo, e todo mundo tem uma história perrengosa pra contar. Socorro.

**

E mesmo assim eu viajo, mesmo assim viajamos e viajaremos. Porque viajar é bom demais. Viajar pra lugares exóticos e ver gente que vive de maneiras diferentes então…abre sua cabeça, dá uma perspectiva que mais nada é capaz de oferecer.
Mas meu Jesusssss…dá trabalho.

E quando eu vejo esse povo feliz da vida, dizendo que vive pra viajar e chega contando que foi tudo LINDOMARAVILHOSOPERFEITOINACREDITÁVEL, dizendo que tem WANDERLUST DESDE CRIANCINHA, que sonha em largar tudo e PASSAR A VIDA VIAJANDO mas não consegue ficar 1 semana sem fazer a unha, eu tenho preguiça. Tenho mesmo. Ou porque é ilusão ou porque a pessoa faz viagens totalmente assépticas.

Mas vai ver sou eu que tô ficando véia e chata.

Pronto, reclamei.

texto por Ana Victória Foganholi

página no Facebook: Não gostou? Faz o seu.

12 comentários em “Quero reclamar de uma coisa

  1. Hahaha…adorei o texto! E concordo ipsis litteris. Principalmente com a parte de ter que conhecer 30 pontos turísticos na mesma viagem. Não sei se sou preguiçosa (acho até que sou, sim), mas prefiro curtir um lugar que tenha me chamado a atenção, ao invés de ficar vendo a cada momento um detalhe, como se o sucesso da viagem dependesse de conhecer vários lugares ao mesmo tempo. Meu namorado é o oposto, ele gosta de desbravar a região, fazer aqueles passeios “por fora” oferecidos pelos guias, mesmo que tenha que acordar bem cedo. Ah, fala sério!!! Quem conhece Itacaré/BA sabe que existem ali várias prainhas, todas lindas e muito parecidas; precisa mesmo andar na mata, alugar carro, contratar guia, pra no final ver algo parecido com a aquela de fácil alcance?? Rsrsrs…tudo bem, sou companheira e faço pra agradar, mas tem dia que bato o pé porque estou afim de curtir o hotel, que é excelente e nos custou um desembolso considerável. Você esqueceu de mencionar nesses 7 quesito suma situação comum a quem viaja: a empolgação na hora de programar ou comprar um pacote, contraposto ao desespero que bate na véspera da viagem: e se acontecer algum problema com meus familiares, e se eu acordar indisposta, e se um de nós adoecer e não encontrarmos assistência médica, e se…

    Curtido por 1 pessoa

    1. Leandra, eu ri! Hahhaahahah. “Pra no final ver algo parecido com aquela de fácil alcance” hahahaha. O importante é ser companheira! E realmente o ponto que você mencionou faltou falar…a mente desgracenta pré-viagem. Afe maria!

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