Não gostou? Faz o seu.

Se o quebrante é seu problema, seus problemas acabaram.

Indo fazer a unha na semana passada, cheguei no salão e sentei do lado de uma senhora bem arrumada assim, cabelo com laquê, maquiada, jóias, capinha de celular com glitter da Barbie E da Hello Kitty. Não era apenas a clássica perua sênior de shopping, era uma perua hablante e com um sotaque diferente, que não foi difícil descobrir, porque ela mesma contou sem ser perguntada, era de Manaus.

Falo de início com certa antipatia pela perua, porque ela fez um comentário péssimo sobre o corpo da ex-grávida (tipo eu) que um dia eu conto, porque tem material suficiente pra outro texto. Mas ela estava tão do meu lado, falando tanto comigo e falando algumas coisas tão engraçadas, que eu acabei cedendo e comecei a conversar com ela.  A verdade é que eu não resisto a uma pessoa extravagante, um pouco cômica e que fala sem pensar. Eu amo ficar quieta e ver o que essas pessoas dizem sem incentivo ou estímulo. Se tiver sotaque diferente então, quase impossível eu me aguentar. Dou trela mesmo, me julguem.

Eis que a conversa sobre nenês corria solta, porque quis o destino que a minha manicure também esteja amplamente grávida, e lá pelas tantas a perua manauara começou a falar sobre o quebrante. De novo esse tal de quebrante.

Veja: quando se tem um nenê recém-nascido, um novo mundo surge diante dos seus olhos. E apesar desse mundo ser um lugar de muita alegria, fofura e descobertas, também tem sua boa dose de coisas sem razão de ser, de mistérios e de fatos que parece que todo mundo já sabia, menos você. Isso quer dizer que a gente entra nesse mundo já se sentindo meio atrasado e meio marido traído, que é sempre o último a saber. Pra mim, o que mais tem encucado até agora, é esse tal do “quebrante” ou “quebranto”, como queiram.

Mal sabia eu que ia a tal madame do meu lado no salão tinha a cura para esse problema!

*

O quebranto me parece que é uma espécie de efeito que o mau-olhado causa. Não é algo novo, muito pelo contrário, é o tipo da coisa desacreditada pelas novas gerações, mas que os mais velhos juram de pé junto que existe.  É assim: a pessoa vai lá, vê o lindo e redondo nenê, lasca mau-olhado nele e ZÁZ, o nenê sofrerá dali em diante efeitos desse mau-olhado, pois está com quebrante. Ele não vai dormir direito, vai chorar demais da conta, vai ter cólica, febre, malemolência.

Uma amiga minha, vendo o nenê dormindo no meu colo e dando aqueles sorrisinhos que eles dão quando estão caindo no sono, foi taxativa “Ih, olha aí, tá com quebrante”. Então, se o seu nenê está dando esses sorrisinhos de mentira enquanto cai no sono, escreva: é quebrante. Encerrado o assunto? Não. Se vamos nos informar com pessoas de linhas mais céticas, sabemos que esses sorrisinhos são um reflexo causado pelo movimento dos gases no trato digestivo do pequeninho. Mas e se for quebrante? Como diferenciar o sorrisinho reflexo do sorrisinho que está denunciando o mau-olhado instalado?

Pois aqui vale mencionar uma das profissões que está desaparecendo por falta de demanda, a da benzedeira. Sim, benzedeira. Essa é uma mulher, tipo uma feiticeira sem aquela aura pagã que ronda as feiticeiras e bruxas em geral, que tem conhecimento de ervas, orações, rezas e tudo mais que envolve mandingas bem brasileiras. E o que ela faz com tudo isso? Sim, ela benze o povo em geral, incluindo bebês indefesos que foram pegos, contaminados, impregnados com esse tal quebrante.

Se você não conhece uma benzedeira, pergunte pra algum conhecido, ele conhece uma. E se ele não conhece, conhece alguém que conhece.

Enfim, eu penso muito nessa pessoa que tem a coragem de colocar mau-olhado em nenê, sabe?  Mas depois de refletir e me indignar, cheguei à conclusão que é isso mesmo, tem gente ruim no mundo, e que faz coisa pior, mas muito pior, do que colocar mau-olhado em nenê.

Mas acabou que um novo aspecto do quebrante também chegou ao meu conhecimento: gente que gosta, que quer o bem do nenê também pode colocar quebrante na criatura!

É assim: a pessoa ama tanto, acha tão fofo, tão lindo, tão tão tão me-dá-vontade-de-esmagar-essa-coisa-gostosa-cuti-cuti, que inadvertidamente vai lá e bota uma ziquizira no nenê, uma ziquizira de amor, mas ainda assim uma ziquizira.

Acho que deve ser parecido como quando você vê alguém comendo algo gostoso, e fica olhando aquele algo que a pessoa está comendo, mas olha tanto que o pedaço de comida cai no chão. É tipo isso o quebrante colocado em nenê por gente insuspeita: ela não queria, foi mais forte do que ela.

E tudo isso me leva a duas questões: como identificar o quebrante e como impedir que o quebrante se instale no nenê?

Como identificar o quebrante, como tudo que é crendice, é uma ciência inexata. Já mencionei os sintomas do nenê quebrantado: dorme mal ou não dorme, chora muito, tem cólica. Não quero aqui soar um São Tomé, mas não são exatamente estes os sintomas de todos os nenês em geral, especialmente os bem novinhos, têm? E que deixam as mães zonzas, sem saber se pega ou deixa no berço? Pois então, não tenho conclusão certeira que ajude muito no desespero da madrugada insone. Então, desculpa te decepcionar.

Agora, como podemos impedir que o quebrante se instale no bebê? Sim, porque se existe quebrante desde que bebês gordinhos e delícia existem no mundo, deve ter um jeito criar uma casca protetora anti-quebrante em volta dele.

Eu também não tenho muita certeza de como fazer isso (sim, aí está você se decepcionando novamente). Não acho que nunca sair de casa com o nenê, pra impedir desconhecidos cruéis de jogarem olho gordo no pequeno resolva, já que já aprendemos que avós, tias e conhecidos em geral podem também quebrantar, mesmo sem querer, o rebento. E se você vai querer tentar impedir avós e tias de ver o neto/sobrinho, o quebrante vai ser o menor dos seus problemas.

Já estava meio conformada de que o quebrante é um fato inevitável da vida, e que o melhor mesmo é ter ao alcance da mão, ou do whatsapp, uma boa benzedeira (que eu inclusive tenho pra indicar) que extermine o quebrante instalado e seguir vivendo.

Mas a vida, essa bandida, sempre guarda suas surpresas, e a solução do quebrante foi dada pela perua barbie sênior do salão.

*

Conta a distinta senhora, que em Manaus, quando alguém elogia os encantos do nenê, a resposta certa e natural não é um “obrigada”, ou um “ai, também acho”. Não não, nada disso. Mães prevenidas e conscientes, que sabem que por trás de cada elogio e olhar amoroso pode morar um intencional ou acidental mau-olhado, não hesitam e se alguém comenta sobre a fofice e boniteza do nenê, respondem automaticamente: “Achou bonito? Então beija o cu dele”.

“Beija o cu dele”!

Simples assim!

Essa rasteira resposta que, de acordo com ela, em Manaus não gera sequer um piscar de olhos, pois é tradicional, impede todo e qualquer tipo de quebrante de se instalar, seja proveniente de pessoa desconhecida ou conhecida, seja do tipo forte ou fraco.

Eu que já estava absolutamente maravilhada com a facilidade da solução, fiquei ainda mais impressionada quando a minha manicure, que é de Fortaleza, rapidamente declara: “Claro que não! Não é ‘beija o cu dele’, é ‘cheira o cu dele’”. Temos variações! Todas igualmente eficientes, tenho certeza.

Beije-se ou cheire-se, a solução é tão simples quanto perigosa, já que em terras curitibanas acredito que vai gerar no mínimo um arregalar de olhos e depois não vai ter explicação que chegue. Mas se você, em prol do bem do seu bebê e para eliminar o quebranto antes de ele se instalar, for começar a dar a resposta-padrão, me chame, porque eu quero estar do lado pra ver o que acontece.

– texto por Ana Victória

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