Medo permanente

Semana passada eu tive que ir me consultar com um médico. Ele me foi muito bem indicado e realmente se provou ótimo profissional.

Mas entre a consulta e a conclusão de que valeu a pena, passei por uma situação:

Chegando na sala dele, que era a última num longo corredor daqueles meio escuros de um grande prédio comercial, vi que não tinha ninguém na sala de espera – nem outros pacientes e nem uma secretária. Entrando no consultório, percebi definitivamente que éramos só eu e ele…

Cumprimentei o médico, sentei na cadeira indicada e, com uma pontinha de medo real, vi ele fechando a porta atrás de mim.

Enquanto eu deveria estar pensando em responder e explicar o motivo da minha presença ali, diversas questões bem diferentes dessas passavam pela minha cabeça:
– será que se eu gritar alguém me ouve?
– será que se no exame ele se portar de maneira errada eu vou perceber logo de cara ou só depois?
– será que ele se aproveitaria porque eu estou grávida ou não vai fazer nada porque eu estou grávida?
– coloquei uma blusa muito decotada? (levanto um pouco a blusa discretamente – que já não tinha nada de decote)
– por que eu não trouxe alguém comigo?
– será que tenho força suficiente pra lutar contra ele?

Acredito que para a maioria dos homens – e algumas mulheres talvez, e que bom se for – essa enxurrada de questões trazidas pelo medo de estar totalmente sozinha com um homem desconhecido, em uma posição vulnerável e que exija toque corporal, possa parecer um drama desnecessário da minha parte. Acredito que para a maioria dos homens seja até uma surpresa saber que algo assim possa passar pela cabeça de uma mulher.

Mas eu sei, e acho isso de uma tristeza imensa, que a enorme maioria das mulheres que leu esse texto entendeu os meus medos perfeitamente no 3o parágrafo. Eu nem precisaria ter continuado a escrever.

Então para esse Dia Internacional da Mulher – entre muitas coisas que não giram em torno de ganhar flor e chocolate – eu desejo pra todas as minhas irmãs que não esteja longe o dia em que não vamos mais ter medo e o que o estupro não seja mais uma possibilidade viva em nossas mentes.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s