​Amor nos tempos de birra

Ontem, falando com uma amiga sobre como o Enrico estava em “plenos 2 anos”, querendo dizer que ele está na fase típica de querer desafiar a autoridade, testar limites (dos outros) e de descobrir que existe a possibilidade dele dizer “não” pra tudo, e citei o último domingo como exemplo da dureza que estava a coisa.

Domingo passado, dia 15/10, felizmente está no passado mesmo. Ô piá mala do djânho.
Nada tava bom, chorava pra tudo, não queria nada pra depois querer e ficar brabo que não deram, tinha sono mas se recusava a dormir, pedia pra brincar mas ficava irritado no minuto seguinte. Ele passou a maior parte do domingo com a cara no tapete (o Enrico é estratégico e quando quer se jogar no chão pra sofrer, procura o tapete fofinho mais próximo, chão duro e gelado, jamais), todo ranhento, a imagem da desgraça.
Se estava difícil pra ele, estava pior pros pais, o Ricardo e eu. Além de ter que administrar as frustrações dele, tínhamos as nossas pra domar. Chegou ao ponto que o Ricardo, que é extremamente paciente, declarou “filho, acho que é hoje que você vai levar um tapa nessa bunda”. O tapa não aconteceu e espero que jamais ocorra. Mas nossos ideais fraquejaram. Eu então, grávida de 5 meses e sem nunca ter sido nomeada a pessoa mais paciente de lugar nenhum, nem estando sozinha no lugar, já estava rindo pra não surtar. Isso é o quão pedreira estava a coisa.
Tá, pra quê contar isso? Porque nesse domingo também foi o dia em que o Ricardo tirou essa foto minha e do Enrico. Um momento espontâneo de leveza e proximidade. Desde então, olho essa foto diversas vezes por dia, eu amei ela!  Publiquei essa foto meu perfil do facebook no domingo mesmo e ela recebeu nada menos do que 188 curtidas até agora. Bastante gente gostou. Capturou mesmo um olhar de puro amor.
O contexto da foto é que depois de muito me estressar em casa, decidi que a gente ia sair, se não pra relaxar, pra pelo menos mudar o cenário do stress. Fomos almoçar, eram umas 15h. Para distrair o juruninha até o macarrão dele chegar, estava com um livrinho da Patrulha Canina e brincando de contar historinha com os personagens. Eis que o Ricardo tira essa foto, numa gota de divertimento que pingou no mar de pentelhação que foi esse dia.
 E foi assim, conversando com a minha amiga e me dando conta dessa ironia de “foto maravilhosa num dia que demorou a passar”, que entendi mais um pouco desse sentimento enorme que liga pais e filhos. Isso é puro amor incondicional. E de mão dupla. 

Essa lente de aumento seletiva, voltada sempre pros momentos bons, é boa parte da decisão de ter mais  mais um filho. Ou isso ou a gente curte se incomodar. Ou os dois.

Quem ri por último…

Por ter uma irmã 3 anos mais velha, eu comecei a pegar balada muito cedo. Em uma delas (que eu acho que era a 2ª edição da Midnight Mansion, se acusem os que lembram) eu devia ter lá pelos meus 14, 15 anos e estava na fila pra comprar uma “água”.

Atrás de mim estavam duas moças. Eis que chega um cara puxar papo com elas. Blá blá blá, etc e tal e ocorre o seguinte diálogo, que eu lembro como se fosse ontem.

– E o que vocês fazem da vida? – pergunta o galante rapaz.

– Eu faço Odonto. – responde uma das coradas mocinhas

– E eu estou fazendo pós em Fisioterapia – a outra complementa.

E a jovem senhorita, que estava de butuca na conversa, ora silenciosamente, com uma certa apreensão: “Meu Deus, quando eu estiver na faculdade eu vou ser muito velha. Socorro.”.

Eu tenho a memória ruim, mas isso ficou na minha mente. Nunca entendi o motivo.

Corta para sábado passado.

Eu, a convite da instituição Junior Achievement, integrei uma banca para escolher o produto Top de Marketing do programa Miniempresa. É um programa voluntário SUPER LEGAL, conduzido em turmas do Ensino Médio de escolas públicas e privadas.

Tá. A banca foi na PUC.

Ficamos lá dentro da sala boa parte da manhã e rapidinho, entre a apresentação de uma equipe e outra, fui ao banheiro.

Saio da sala e dou de cara com um vasto grupo de jovens e eu penso “nossa, não tem tudo isso de aluno apresentando o Miniempresa! Será que alguma escola aproveitou o sábado pra fazer uma visita à PUC?”.

Entrei no banheiro.

Saindo, escuto uma conversa vinda do grupo:

– O professor Tal falou que a prova vai ser discursiva.

– Nossa, só me falta pegar dependência de novo na matéria desse desgraçado.

Sim. Aquela cri-an-ça-da, me doeu perceber, estava toda na faculdade. Não eram de escola nenhuma. Tinha até um que já tinha pego dependência.

Apressei o passo e voltei pra sala.

Coloquei a mão na barriga, pra pelo menos evidenciar que era uma gravidez e não uma pança à toa.

Touché, meninas da fila, touché.

vamos dar risada

Cachorro ou bebê?

Coisas que podem ser ditas pra/de um nenê e/ou um cachorro:

– olha, ele babou no meu celular todo!
– devolva o controle remoto!
– você viu minha chave do carro? Acho que ele escondeu de novo.
– pare de roer os móveis!
– sai da frente da tv…
– nossa, não dormi nada, ele chorou a noite toda.
– você dizia que ele não ia dormir na nossa cama, e agora olha só: 90% da cama é dele.
– esse olhar! Só falta falar!
– cara, como pode esse cocô feder tanto?
– você acha que eles não entendem nada, mas entendem tudo!
– não faça xixi aí!
– ah, isso é coceira no dente.
– vai lá fora fazer isso!
– para de espalhar comida por tudo!
– beba água! Por que você não bebe mais água?
– chocolate você não pode!
– já pra caminha!
– não adianta reclamar, vai tomar banho sim.
– desce da mesa de centro!

Quê mais?

Banheiro e filhos

maozinha

Deveria existir o EMATU, Estatuto da Mãe e Tutor, que nem tem o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

No EMATU ia ter um artigo que diz algo assim: Toda mamãe ou tutor tem o direito de ir ao banheiro fazer suas humildes necessidades sem uma ou mais crianças na porta berrando o seu nome e forçando o trinco.

Não haveria de ser o primeiro artigo, porque têm coisas muito mais importantes, mas precisa estar nesse estatuto.

Precisa, gente.

Claro, não ia adiantar de nada, eles continuariam fazendo exatamente isso, mas pelo menos a gente ia reclamar e se irritar com embasamento jurídico.

Uma história quase assombrada


Fim do dia, acabamos de chegar em casa, sr. Enrico e eu. Casa vazia e escura.
Antes de eu ter ter tempo de acender a luz, Enrico para na soleira da porta, aponta decidido em direção à mesa de jantar que está na penumbra e exclama
– um monte de gente!

– oi, filho? O que? ( tentando manter a calma espiritualizada mas já considerando colocar a casa à venda.)

– um monte de gente!

Respiro fundo, analiso a cena do ponto de vista dele, vejo a estante atrás da mesa, e pergunto pausadamente

– Filho, o monte de gente tá na mesa ou tá nas fotos?

– Nas fotos.

Não estou mais vendendo a casa.

Acendi um incenso de Palo Santo just in case.

Oremos.

Desculpe alguma coisa

Pessoas que dizem “desculpe alguma coisa” me deixam em parte com preguiça, em parte desconfiada.
Preguiça porque se ambas sabemos o que foi feito pra se desculpar, o bom é dizer, por exemplo “desculpa pisar no seu pé aquela hora”. Se a pessoa não diz pelo o que se desculpa, pra mim, é meia desculpa, 1/3 de desculpa. Dispenso.

E a parte da desconfiança vem se eu não acho que a pessoa fez nada que precise ser desculpado. Mas daí fico pensando: ela fez algo que eu não vi? Vou descobrir mais tarde? Ela achou que fez algo que eu achei ruim? Será que eu fiz alguma cara feia e ela achou que era com ela? 

 

Será que ela entupiu o vaso?

Será que deixou cair comida no tapete e eu não vi?

Devo passar a casa em revista?

Falou mal de mim? Disse que eu tava feia sem querer pra alguém?

São muitos achismos, poucas certezas.
Na melhor das hipóteses, essas palavras partem de um sentimento de inadequação e medo de ser inconveniente que a pessoa tem, o que também não serve pra muita coisa.
De qualquer forma, acho péssimo esse “desculpe alguma coisa”. 
Vamos acabar com o “desculpe alguma coisa”, e com a ervilha em conserva, que é uma merda.

Do que uma mãe de recém-nascido precisa?

Há alguns dias fiz a seguinte pergunta pras amigas que são mães no meu face: “Nas primeiras semanas de nascido dos seu nenê, o que você queria/precisava que tivessem feito por você mas não fizeram?”

É um assunto que já vem sendo falado, tem até uma lista super ótima que circula pela  internet faz um tempo com regras de etiqueta pra visitar o recém-nascido.

Mas se as angústias, necessidades e dificuldades da “mãe recém-nascida” estão sendo bastante faladas agora, isso é mesmo uma novidade. Antes ninguém tocava no assunto. A visão popular, senso comum da imagem de uma nova mãe (e a cada filho que nasce a mãe nasce de novo, viu?) era a mulher-diva-deusa amamentando numa nuvem tão rosada quanto suas bochechas, embevecida em felicidade e serenidade.

Bem, voltando pra realidade sonolenta e sem tempo pra tomar banho dos fatos, muitas mulheres mencionaram que sofreram com o famoso Excesso de Palpite.

EXCESSO DE PALPITE

Pitacos, opiniões e comentários não solicitados, sabe? Claro que sabe.

pitacos“Amamenta assim”, “Não é assim que troca a fralda”, “Ele ainda não dorme a noite inteira?!”, “Desse jeito você afoga ele”, “Ela tá com cólica porque você comeu feijão”, “Ele está com frio, coloque um casaquinho”, “Tá usando cinta? Minha prima não usou cinta e até hoje tem vergonha da barriga”, “Seu leite é fraco, ele chora tanto porque está com fome”, “Isso é quebrante”. A lista não tem fim. Vamos fazer assim? A não ser que seja um caso flagrantemente errado, deixe a mãe fazer do jeito dela. Cuidar de um nenê é tipo Neston, existem 1000 maneiras de fazer. Todas certas, todas boas.

E não sei se todos os palpiteiros sabem, mas existe uma especialidade médica chamada PEDIATRIA. Tem essa pessoa denominada médico pediatra – e ele orienta a nova mãe em tuuuuudo que se relaciona ao cuidado com o bebê! Impressionante né? Eu sei.

Então eu recomendo agir da seguinte forma, mamães de saco cheio com os palpiltes: leve sempre consigo um bolo de cartões de visita do pediatra do seu filho. A pessoa começou a dar palpite? Entregue um cartão do pediatra e peça que ela fale com ele(a) e ensine pra esse médico como que se faz.

E pode ter bastante cartão de visita, porque no começo, especialmente no primeiro filho, é muita gente agoniada pra visitar a qualquer custo:

NASCEU! VAMOS AGITAR UM CHURRAS NA MATERNIDADE MESMO?

churrasTambém apareceram muitos comentários falando sobre a bagunça, a enorme quantidade de visitas, a falação, a festa, o clima de frango com farofa, enquanto a mãe só queria silêncio e privacidade com o seu recém-nascido. Eu, Ana Victória, fui chamada de chata quando pedi pra falarem baixo perto do nenê na maternidade.

Que zona, que invasão de privacidade, que agonia absurda pra ver um nenê que via de regra, fora pra família e amigos muito próximos, é exatamente igual a todos os outros. Isso é típico de país latino. Com essa onda de conscientização, espero que o costume acabe logo, salvo se a mãe fizer questão e deixar claro que quer isso.

“Ai que chata! que neura!”. Verdade, a gente fica meio na neura no começo e a neura precisa ser respeitada. Então, ao invés de avisar que vai visitar, pergunte na boa se pode ir ou se a mãe prefere que seja mais pra frente.

Meus visitantes foram dos mais diversos, e teve gente que eu amei receber, que eu não queria que fosse embora, porque eu sou do tipo expansivo-gregário-italiano. Teve gente que eu fiquei meio “?” e outras que se só pisassem na soleira da porta e fossem embora não teriam ido rápido o suficiente. 

A questão é que com tanta gente orbitando, temos um resultado que é a soma de ter visitas em casa + uma mãe que acaba de dar à luz:

CASA SUJA, MÃE CANSADA, NENÊ INDEFESO, VISITAS À VONTADE.

house guestsFalta de ajuda pra arrumar a casa é outro clássico. “Me dá ele aqui, eu seguro ele pra você poder lavar a louça.”. Não. Não. Você lava a louça se puder, por favor. A mãe quer ficar com o bebê. A mãe quer dormir. A mãe quer fugir por 1h e respirar ar puro, quer ir fazer a unha, ficar sentada olhando pro nada, quer olhar pra cara de outras pessoas, quer se reconectar com uma parte dela que ela não encontra desde que deu entrada na maternidade. Se você puder e ela quiser que você fique com o nenê, é esse tipo de coisa que você vai sugerir que ela faça. A louça a gente vê depois.

Vá, visite, fale de coisas legais, ajude a mãe a espairecer, dê o mínimo de trabalho necessário, se der leve algum quitute que lactantes possam comer, fale baixo, lave as mãos, seja acolhedor, porque diante de você tem uma mulher que acaba de mudar de planeta e pode ser que ela esteja diante de um desafio e um período árido, com bastante:

SOLIDÃO

Um tópico que fica no cantinho, no escuro, encolhido, porque é bem dolorido.

 

solidão

Não sei como era cuidar de uma criança no passado, dizem que era algo muito mais coletivo, mas hoje em dia não é mais. A vida de todos é agitada, mil coisas pra fazer o dia todo, a nova mãe se sente deixada pra trás, fora do mundo real. É a solidão. E ela é tão pouco falada, e é pouco falada porque pode soar como uma acusação, uma reclamação daqueles mais próximos. É pouco falada porque é vista como fraqueza. Mas precisa ser dito: muitas mães de bebês se sentem sós. Se sentem carentes de companias que agregam e fazem bem. Talvez sua amiga que teve bebê faz 2 meses esteja em casa se sentindo abandonada e esquecida pelo resto do mundo. Espero que não, mas provavelmente está.

Nos vemos cercadas de muita gente no início, a enorme maioria totalmente fora do nosso ritmo e momento, nos sentimos sós. As pessoas falam, riem, poucas nos olham nos olhos pra realmente saber como está sendo, presumem que está sendo só alegria e beleza, nos sentimos sós. Sentimos toda a culpa do mundo pesando nos nossos ombros, sentimos uma tristeza sem nome, sentimos uma melancolia que cresce ao anoitecer, nos sentimos sós.  Temos medo de fazer algo errado, temos medo de falhar, nos sentimos sós. Quando passa a novidade, todo mundo some, a euforia acaba, muitos se afastam (e na maioria das vezes não é por mal, se afastam porque não querem incomodar), nos sentimos sós. Estamos cuidando de um ser tenro e vulnerável, hesitamos em fazer tudo, nos isolamos, ficamos presas em casa, nos sentimos sós. Temos dúvidas, somos mulheres, não nos ensinaram a pedir ajuda, parece que a gente tem que saber tudo por instinto, nos sentimos sós. A ajuda quando vem, muitas vezes vem de uma forma invasiva, julgadora, desmoralizante, nos sentimos envergonhadas, nos sentimos sós. Sentimos solidão.

Então o que saiu dessa pergunta que fiz foram essas reflexões. Muitas mais conhecidas e bem importantes, e a última menos falada mas muito real também.

Mas e agora? O que fazer?

Como ajudar a mãe que acabou de ter um filho? Olhe nos olhos dela e pergunte com calma e sinceridade “Como eu posso te ajudar?”.

Você tem muita intimidade com essa mãe, olhe nos olhos dela e pergunte “Quer conversar?”, “Quer um abraço?”, “Quer um colinho?”.

abraço de ursoE você, mamãe recém-nascida, quer ser ajudada? Se permita, deixe que te ajudem. Assuma sua fragilidade e medo pra alguém de confiança, peça pra conversar, peça pra que comprem pão. Peça ajuda. Procure os grupos de mães da sua cidade, no seu facebook, no seu whatsapp. Encontre aqueles que servem para as mães se apoiarem e não se vangloriarem e compararem qual ganhou mais peso ou dorme mais, esses só pioram a situação. Talvez essa ajuda venha e seja mais fácil do que você imaginou.

Lendo as respostas, lendo os relatos, percebi que tudo o que ficou em falta nos primeiros tempos de nenê se origina simplesmente do fato das pessoas presumirem o que a mãe quer e precisa, ao invés de simplesmente perguntar a ela. Ela sabe, mas parece que todo mundo acha que sabe mais, ou que simplesmente não ligam.

E então? O que uma mãe de filho recém-nascido precisa?

Olhe nos olhos dela e: Pergunte pra ela.

Vai dar certo!

***

Texto por Ana Victória Garofani Foganholi

Curta a minha página no Facebook: Não gostou? Faz o seu.

 

 

O que tem pro jantar?

Fiz canja: o Enrico não quer.Chorou, fez escândalo, cara cheia de ranho.

Paramos. Pra que isso?

Vamos espairecer, vamos desbaratinar.

Peguei uma forma de bolo, coloquei um punhado de farinha, outro de açúcar e mais um de arroz. Cru. Arroz cru. Vamos brincar.

Que brincadeira tátil. Sensorial. Mãe dedicada. Vida real ou propaganda de margarina? Não se sabe.

Mentira.

Realidade:

Ele quer brincar? Não.
Ele quer comer.

Por toda lei.

A missão de vida dessa criança é comer um punhado dessa mistura.

Jesus colocou ele na Terra pra isso.
Canja? Não. Nem sob tortura.

Mistura de farinha, açúcar e arroz cru? Só se for agora.

Conclusão: TV. Galinha Pintadinha.

Eu: celular escrevendo isso.

Amanhã tem mais.

Vamos fazer nada?

Passei os últimos 10 dias com o celular desligado, bem guardadinho na bolsa e sem nenhum computador por perto.

Claro, foi fácil…eu estava de férias num resort, na Bahia, com sol, mar, piscina, comida e bebida à vontade. Super tranquilo, dava graças a deus que tava longe do celular e até arrisquei uns olhares julgadores com ar de superioridade bem caprichados para os pobres acorrentados que sem descanso fitavam a tela de seus smartphones. Eu, a desapegada da tecnologia. Eu, diva analógica. Eu, a rainha do perguntar as horas pros outros.

Voltando das férias lhes digo que a crise de abstinência bateu forte, estou bulindo com o celular até no sinal vermelho e hoje mesmo QUASE QUE a primeira coisa que eu fiz assim que acordei foi olhar no celular. (mentira, foi exatamente o que eu fiz).

Acabou o olhar julgador com ar de superioridade pra bonitona aqui.

julgando-os-outros
dsclp, Jesus.

Mas ficou a reflexão. Tá certo que não é uma reflexão exatamente nova, mas continua bem oportuna:

A gente desaprendeu a “fazer nada”?

Não falo das pessoas com a cara enfiada no celular nos ônibus, salas de espera de consultório, cartórios (malditos cartórios) etc. Esse sempre foi o território de livros, revistas, televisões, dedo no nariz… o celular é só mais um passatempo.

Falo do uso do celular enquanto se espera o garçom trazer o cardápio, quando estamos parados no sinal vermelho, quando esperamos o café filtrar, o elevador chegar, a pausa no filme enquanto a outra pessoa vai ao banheiro.

O que a gente fazia nesses microintervalos quando não valia a pena sacar o livro ou revista pois mal ia dar tempo de ler duas páginas? Nada.

Por “nada” leia-se “olhava em volta”: notava o cachorro passando, o passarinho pousando, o casal se beijando, o furo na toalha, o bordadinho do pano de prato que sua madrinha fez, os números do visor do elevador rodando, catava um cabelo preso na sua blusa.

tedio

E às vezes  nesse nada até dava tempo de parar a cabeça um pouco, respirar, pensar em algo, lembrar de alguém ou só ficar com o olhar parado congelado, olhando pro nada, dando um “stop” no corpo e na mente e acordando alguns segundos depois.

Mas hoje o que a maioria faz é pegar o celular e eliminar esses momentos. Eles valiam de alguma coisa? Perdemos algo tendo os minutos de tédio substituídos por olhar o face, o insta, o whats, o snap e tudo mais?

Não sei, não tenho uma resposta definitiva.

Mas tenho um indicativo e uma observação:

O indicativo são as inúmeras matérias escritas para os pais de crianças, pedindo que deixem que os pequenos “se virem”: que inventem suas brincadeiras, que fiquem sem fazer nada, que sentir tédio é a centelha da criatividade, que celular atrapalha isso, que a tecnologia em excesso interfere numa parte importante formação cognitiva e social.

E como criança está para humano como girino está para sapo, não tem jeito de achar que pra adulto é diferente. Pode ser que em menor escala, mas a verdade é a seguinte: o celular em excesso pode nos roubar não apenas valiosos momentos com família e amigos, mas também aqueles pequenos momentos em que uma grande ideia ia aparecer na sua cabeça ou em que você ia ver um beija-flor ou só dar uma grata paradinha na correria do seu dia.

 

sapo
e se não servir pra nada sentir tédio, pelo menos serve pro celular não cair na sua cara enquanto você mexe nele deitado. Esse sapo está em segurança.

Já a observação foi lá no resort mesmo, e uma das boas: como eu era uma das poucas adultas sem estar com a cara enfiada no celular, eu fui a primeira (ou uma das) de muitas pessoas que estavam sentadas nas mesas, no pátio da piscina, a ver a lua cheia nascendo linda, amarelona, deslumbrante por detrás do coqueiral.

Decidi que eu quero ser essa pessoa que vê a lua mais vezes por que não estava pegando os whatsapp e desejo que eu esteja acompanhada por cada vez mais gente. Virei defensora dos momentos de microtédio.

se-tedio-e-tendencia-hoje-eu-to-na-moda

 

 

– texto por Ana Victória

Página no Facebook: Não gostou? Faz o seu.